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Choque Obstrutivo

É o único tipo de choque em que a droga vasoativa não resolve nada: o coração está bom, o sangue está lá, mas alguma coisa mecânica impede o enchimento ou o esvaziamento. Enquanto o obstáculo não for removido, o paciente continua morrendo — e o tempo entre reconhecer e desobstruir é quase todo o prognóstico.

Ultrassom em minutos VD dilatado + VCI cheia Tratar é desobstruir Volume em excesso piora
Tempo de leitura: 18 min
Atualizado em: 16/08/2026

Suspeitar

  • Choque com veias jugulares cheias e pulmões limpos
  • Hipotensão que não responde a volume nem a vasopressor
  • Piora súbita logo após intubar ou ventilar
  • Assistolia ou AESP com QRS estreito e rápido

As três principais

  • Tromboembolismo pulmonar de alto risco
  • Tamponamento cardíaco
  • Pneumotórax hipertensivo
  • Não esquecer auto-PEEP e hiperinsuflação dinâmica

Confirmar à beira do leito

  • Ultrassom point-of-care é o exame que decide
  • Derrame pericárdico com colapso das câmaras direitas
  • VD dilatado com septo em D e VCI pletórica
  • Ausência de deslizamento pleural com ponto pulmonar

Desobstruir

  • Tratamento é remover o obstáculo, não titular droga
  • Volume com cautela: 250 a 500 mL e reavaliação
  • Noradrenalina para manter a perfusão coronariana do VD
  • Ventilação com volume e pressão baixos

O que é choque obstrutivo

Choque obstrutivo é o estado de hipoperfusão tecidual causado por um obstáculo mecânico ao fluxo sanguíneo central, e não por falha da bomba, por perda de volume ou por vasodilatação. O miocárdio costuma estar íntegro e a volemia costuma ser adequada; o problema é que algo impede o sangue de entrar no coração, de sair dele ou de atravessar a circulação pulmonar.

É o menos frequente dos quatro grandes tipos de choque, mas o de raciocínio mais decisivo: as causas são poucas, reconhecíveis à beira do leito e reversíveis em minutos. Um paciente com tamponamento ou pneumotórax hipertensivo pode passar de moribundo a estável com um procedimento de dois minutos — e morrer se esse procedimento demorar.

A lição central: no choque obstrutivo, o tratamento é o procedimento. Vasopressor, volume e inotrópico são apenas ponte para ganhar tempo até a desobstrução. Insistir em otimização hemodinâmica sem remover o obstáculo é o erro que mata.

Onde está o obstáculo

Vale organizar mentalmente por onde o fluxo é interrompido. Isso separa as causas em dois mecanismos, com consequências práticas diferentes.

Obstáculo ao enchimento (pré-carga)

O sangue não consegue voltar ao coração ou o coração não consegue se encher. A pressão externa sobre as câmaras ou a compressão das veias cavas reduz o volume diastólico final.

  • Tamponamento cardíaco
  • Pneumotórax hipertensivo
  • Hiperinsuflação dinâmica e auto-PEEP
  • Pericardite constritiva descompensada
  • Síndrome compartimental abdominal
  • Compressão da veia cava — útero gravídico, massa tumoral

Obstáculo ao esvaziamento (pós-carga)

O ventrículo se enche, mas não consegue ejetar contra uma resistência súbita. O ventrículo direito, fino e pouco adaptado a sobrecarga aguda de pressão, é a vítima habitual.

  • Tromboembolismo pulmonar de alto risco
  • Embolia gasosa, gordurosa e por líquido amniótico
  • Hipertensão pulmonar aguda descompensada
  • Trombose de prótese valvar e mixoma atrial
  • Dissecção de aorta com comprometimento do fluxo
  • Obstrução dinâmica da via de saída do VE em hipovolemia
Essa divisão explica por que a resposta ao volume é imprevisível. No obstáculo ao enchimento, um volume modesto ajuda a manter o gradiente de enchimento. No obstáculo ao esvaziamento com ventrículo direito já dilatado, o mesmo volume distende ainda mais o VD, desloca o septo e reduz o débito.

A espiral de morte do ventrículo direito

Na maioria dos choques obstrutivos, o desfecho final é a falência do ventrículo direito. Entender essa cadeia orienta cada decisão terapêutica.

  1. A obstrução aumenta de forma súbita a pós-carga do VD, que é uma câmara de parede fina e sem reserva para sobrecarga aguda de pressão.
  2. O VD dilata para tentar manter o volume ejetado, e a insuficiência tricúspide funcional agrava a congestão retrógrada.
  3. O septo interventricular é empurrado para a esquerda — o clássico sinal do D — e a interdependência ventricular reduz o enchimento do VE.
  4. Cai o débito do VE, cai a pressão aórtica e, com ela, cai a pressão de perfusão coronariana do VD, que depende principalmente da diástole sistêmica.
  5. O VD isquemia, contrai menos, dilata mais, e o ciclo se fecha: hipotensão gera isquemia, que gera mais hipotensão. É a espiral de morte.
  6. Romper o ciclo exige duas coisas simultâneas: restaurar a pressão arterial com vasopressor precoce e remover a obstrução.
Isso justifica uma conduta contraintuitiva: no choque obstrutivo com VD falido, o vasopressor entra cedo, antes de "otimizar o volume". Manter a pressão diastólica sistêmica acima da pressão do VD é o que preserva a perfusão coronariana da parede que está falindo.

Diferenciando dos outros tipos de choque

O perfil hemodinâmico do choque obstrutivo se parece com o cardiogênico em quase tudo — débito baixo, resistência alta, pressões de enchimento altas. A diferença está no coração: no cardiogênico ele falha; no obstrutivo ele é impedido.

Tipo Débito cardíaco Resistência vascular Pré-carga / VCI Pele e perfusão
Hipovolêmico Baixo Alta Baixa — VCI colabada Fria, tempo de enchimento capilar lento
Cardiogênico Baixo Alta Alta — VCI pletórica Fria, com congestão pulmonar frequente
Distributivo Normal ou alto Baixa Variável, geralmente baixa Quente no início, com pulso amplo
Obstrutivo Baixo Alta Alta — VCI pletórica Fria, tipicamente sem congestão pulmonar
A dupla jugulares distendidas com ausculta pulmonar limpa é a assinatura clínica clássica do choque obstrutivo, porque separa-o do cardiogênico esquerdo, em que há congestão. Lembre que os tipos coexistem: sepse com pneumotórax hipertensivo por barotrauma é uma combinação frequente na UTI.

Por que isso importa

Tempo

Pneumotórax hipertensivo e tamponamento matam em minutos; o tratamento leva menos tempo que o exame de imagem.

Reversibilidade

São causas potencialmente reversíveis — os "Ts" e o "T" de trombose das causas de parada cardíaca.

Diagnóstico

O ultrassom à beira do leito responde às três principais hipóteses em poucos minutos.

Volume

É o único choque em que a reposição volêmica generosa pode piorar diretamente o débito.

Ventilação

A pressão positiva pode ser o gatilho da descompensação e precisa de estratégia própria.

As três grandes

Na prática de emergência e de terapia intensiva, três diagnósticos respondem pela quase totalidade dos casos. Em todo choque indiferenciado com pré-carga aparentemente cheia, eles devem ser ativamente descartados antes de qualquer outra coisa.

TEP de alto risco

Trombo ocluindo o leito arterial pulmonar com repercussão hemodinâmica. Dispneia súbita, dor torácica, síncope, hipoxemia com radiografia pouco alterada.

Procure fatores de risco: imobilização, cirurgia recente, neoplasia, trombofilia, gestação, uso de estrogênio e trombose venosa profunda.

Chave: VD dilatado, sinal do D, VCI pletórica e pulmões sem congestão.

Tamponamento cardíaco

Líquido no saco pericárdico com pressão suficiente para impedir o enchimento diastólico. O que importa é a velocidade de acúmulo, não o volume absoluto.

Causas: trauma penetrante, dissecção de aorta, pericardite, neoplasia, uremia, pós-procedimento cardíaco e pós-operatório.

Chave: derrame pericárdico com colapso do átrio e do ventrículo direitos.

Pneumotórax hipertensivo

Ar sob pressão no espaço pleural, com desvio do mediastino e compressão das veias cavas. Diagnóstico é clínico: não espere a radiografia.

Causas: trauma torácico, barotrauma sob ventilação mecânica, punção de acesso central e procedimentos torácicos.

Chave: hipotensão com murmúrio abolido, timpanismo e desvio da traqueia.
No paciente em ventilação mecânica que descompensa de forma súbita, o pneumotórax hipertensivo entra em primeiro lugar na lista, junto com deslocamento do tubo, obstrução do tubo e falha do equipamento — o mnemônico DOPE. Desconectar o paciente do ventilador é um passo diagnóstico e terapêutico.

Panorama completo das causas

Causa Mecanismo Pista clínica Tratamento definitivo
TEP de alto risco Aumento súbito da pós-carga do VD Dispneia e síncope, hipoxemia, VD dilatado ao ultrassom, trombose venosa profunda Trombólise, trombectomia ou embolectomia
Tamponamento cardíaco Compressão externa das câmaras cardíacas Bulhas abafadas, jugulares distendidas, pulso paradoxal, alternância elétrica Pericardiocentese ou janela pericárdica
Pneumotórax hipertensivo Compressão das cavas e desvio do mediastino Murmúrio abolido, timpanismo, enfisema subcutâneo, pico de pressão alto no ventilador Descompressão imediata e drenagem torácica
Auto-PEEP e hiperinsuflação dinâmica Pressão intratorácica alta reduz o retorno venoso Asma e DPOC ventilados, fluxo expiratório que não zera, hipotensão que melhora ao desconectar Desconectar, reduzir frequência e volume, prolongar a expiração
Embolia gasosa Bloqueio da via de saída do VD por ar Manipulação de acesso central, neurocirurgia sentada, colapso súbito com sopro em roda de moinho Decúbito lateral esquerdo com cabeceira baixa, oxigênio a 100%, aspiração pelo cateter
Embolia amniótica e gordurosa Obstrução e reação inflamatória pulmonar Colapso no periparto ou após fratura de osso longo, com coagulopatia associada Suporte avançado; considerar circulação extracorpórea
Hipertensão pulmonar descompensada Pós-carga cronicamente alta que descompensa Doente já conhecido, gatilho infeccioso ou arritmia, VD grande e hipertrofiado Tratar o gatilho, vasodilatador pulmonar inalado, suporte especializado
Trombose de prótese e mixoma atrial Obstrução intracardíaca ao fluxo Prótese valvar com anticoagulação inadequada, sopro variável com a postura, síncope Ecocardiograma urgente, trombólise ou cirurgia
Pericardite constritiva Restrição ao enchimento diastólico Congestão sistêmica desproporcional, sinal de Kussmaul, calcificação pericárdica Pericardiectomia eletiva após estabilização
Síndrome compartimental abdominal Pressão abdominal reduz o retorno venoso Abdome tenso, oligúria, pressão de pico elevada no ventilador Medidas de descompressão e, se necessário, laparotomia
Compressão aortocava Útero gravídico comprime a veia cava inferior Gestante a partir do segundo trimestre, hipotensão em decúbito dorsal Deslocamento uterino para a esquerda
Alguns autores incluem também a estenose aórtica crítica e a obstrução dinâmica da via de saída do ventrículo esquerdo entre as causas obstrutivas; outros as classificam como cardiogênicas. A discussão é mais taxonômica do que prática — o que muda a conduta é reconhecer que existe um obstáculo mecânico e que o inotrópico pode piorar a obstrução dinâmica.

Na parada cardíaca

Três das causas reversíveis de atividade elétrica sem pulso são obstrutivas. Em toda parada com ritmo não chocável, elas devem ser buscadas ativamente, de preferência com ultrassom durante a checagem de pulso, sem prolongar as pausas.

Pneumotórax hipertensivo

Descompressão bilateral empírica é aceitável na parada traumática, antes de qualquer confirmação por imagem.

Tamponamento

Pericardiocentese guiada por ultrassom; na parada traumática penetrante, considerar toracotomia de reanimação em serviço habilitado.

Trombose pulmonar

Trombólise durante a reanimação quando o TEP é a causa presumida, mantendo a massagem por 60 a 90 minutos após a dose.

Sinal de alerta

Parada com atividade elétrica organizada, QRS estreito e frequência preservada sugere causa mecânica, não miocárdica.

A abordagem em cinco minutos

Diante de um choque indiferenciado, a pergunta que separa o obstrutivo dos demais é simples: a pré-carga está cheia e os pulmões estão limpos? Se sim, existe um obstáculo até prova em contrário.

  1. Reconheça o choque: hipotensão ou sinais de hipoperfusão com lactato elevado, oligúria, pele fria e alteração do sensório.
  2. Olhe o pescoço e ausculte o tórax. Jugulares distendidas com pulmões limpos orientam fortemente para obstrutivo.
  3. Se houver murmúrio abolido de um lado, com timpanismo e instabilidade, descomprima imediatamente — não peça radiografia.
  4. Pegue o ultrassom: janela subxifoide e paraesternal para pericárdio e ventrículo direito; veia cava inferior; pleura bilateral.
  5. Interprete o conjunto: derrame com colapso das câmaras direitas, VD dilatado com sinal do D, ou ausência de deslizamento pleural com ponto pulmonar.
  6. Comece o suporte enquanto define a causa: vasopressor precoce, volume cauteloso e oxigenação, sem atrasar o procedimento definitivo.
  7. Confirme com o exame adequado apenas se o paciente tolerar o transporte — angiotomografia de tórax quando estável o suficiente.

Achados clínicos que apontam a causa

Achado O que sugere Observação prática
Turgência jugular com pulmões limpos Qualquer causa obstrutiva Pode faltar no paciente hipovolêmico simultâneo — trauma com hemorragia e tamponamento associados.
Bulhas abafadas, hipotensão e turgência jugular Tríade de Beck — tamponamento A tríade completa é pouco frequente. Ausência não afasta; presença é bastante sugestiva.
Pulso paradoxal Tamponamento, também asma grave e auto-PEEP Queda inspiratória da pressão sistólica acima de 10 mmHg. Pouco confiável em arritmia e em hipotensão extrema.
Murmúrio abolido com timpanismo Pneumotórax hipertensivo Desvio de traqueia e enfisema subcutâneo são tardios. Não espere por eles.
Elevação súbita da pressão de pico no ventilador Pneumotórax, auto-PEEP ou obstrução do tubo Compare pico e platô: pico alto com platô normal aponta resistência; ambos altos apontam complacência reduzida.
Hipotensão que melhora ao desconectar do ventilador Auto-PEEP e hiperinsuflação dinâmica Teste diagnóstico e terapêutico ao mesmo tempo: desconecte e comprima o tórax por alguns segundos.
Hipoxemia desproporcional à radiografia TEP A radiografia costuma ser normal ou inespecífica; a discrepância é a própria pista.
Síncope com dispneia súbita TEP de alto risco Síncope indica repercussão hemodinâmica significativa e deve elevar o nível de alerta.
Alternância elétrica no eletrocardiograma Derrame pericárdico volumoso Específica, mas pouco sensível. Baixa voltagem e taquicardia sinusal são mais comuns.
Sinal de Kussmaul Constrição pericárdica, TEP e infarto de VD Aumento paradoxal da turgência jugular à inspiração. É raro no tamponamento puro.
O eletrocardiograma no TEP mais frequentemente mostra taquicardia sinusal. O padrão S1Q3T3 e a inversão de T de V1 a V4 sugerem sobrecarga do VD, mas são pouco sensíveis — um eletrocardiograma normal não afasta TEP.

Ultrassom point-of-care

O ultrassom à beira do leito é o exame que muda a conduta no choque obstrutivo. Protocolos como o RUSH organizam a avaliação em bomba, tanque e canos; para a suspeita de obstrução, quatro janelas respondem quase tudo.

1. Coração — subxifoide e paraesternal: procure derrame pericárdico circunferencial, colapso diastólico do átrio direito (mais sensível) e do ventrículo direito (mais específico), e o coração "balançando" dentro do saco pericárdico.
2. Ventrículo direito — apical 4 câmaras: relação VD/VE acima de 0,9 a 1,0 indica dilatação. Procure também o achatamento do septo em sinal do D no eixo curto paraesternal e o sinal de McConnell, com hipocinesia da parede livre e ápice preservado.
3. Veia cava inferior: diâmetro acima de 2 cm com colapso mínimo à inspiração indica pressão venosa central elevada — compatível com todas as causas obstrutivas e incompatível com choque hipovolêmico puro.
4. Pleura — bilateral e anterior: ausência de deslizamento pleural, ausência de linhas B e de pulso pulmonar sugerem pneumotórax; o ponto pulmonar é praticamente diagnóstico, embora possa faltar no pneumotórax volumoso.
5. Complemento venoso: ultrassom de compressão das veias femorais e poplíteas. Trombo visível em paciente com choque e VD dilatado torna o TEP suficientemente provável para tratar sem angiotomografia.
Atenção a duas armadilhas. Primeira: o sinal de McConnell e a dilatação do VD também aparecem no infarto de VD e na hipertensão pulmonar crônica — o contexto decide. Segunda: um VD dilatado e hipertrofiado, com parede acima de 5 mm, indica sobrecarga crônica, e não evento agudo isolado.

Exames complementares

Lactato e gasometria

Lactato acima de 2 mmol/L confirma hipoperfusão e é um dos critérios de gravidade nas categorias mais altas de TEP. A gasometria costuma mostrar hipoxemia com hipocapnia por hiperventilação.

Troponina e peptídeo natriurético

Marcam sofrimento e disfunção do ventrículo direito. São peças da estratificação de risco no TEP, não ferramentas diagnósticas isoladas.

Dímero-D

Útil apenas para excluir TEP em probabilidade pré-teste baixa ou intermediária. No paciente em choque, não tem papel: a probabilidade já é alta e o resultado não muda a conduta.

Radiografia de tórax

Pode revelar pneumotórax, alargamento da silhueta cardíaca ou congestão. Nunca deve atrasar a descompressão de um pneumotórax hipertensivo suspeitado clinicamente.

Angiotomografia de tórax

Padrão para confirmar TEP e medir a relação VD/VE. Só se o paciente tolerar o transporte; no instável, o ultrassom decide.

Ecocardiograma formal

Complementa o ultrassom point-of-care na avaliação de próteses, massas intracardíacas e fisiologia constritiva.

Calculadora — índice de choque

Triagem de gravidade Beira do leito Reavaliação seriada

O índice de choque é a razão entre frequência cardíaca e pressão arterial sistólica. Não é diagnóstico, mas detecta hipoperfusão antes de a pressão despencar e é especialmente útil no acompanhamento seriado: o que informa é a tendência, e não o valor isolado.

Índice de choque
Pressão arterial média
Índice de choque modificado
Leitura
Preencha frequência e pressões
O índice de choque isolado não define etiologia — use-o junto com o ultrassom
Referências de leitura: abaixo de 0,7 é habitualmente normal; entre 0,7 e 0,9 há alerta; acima de 0,9 sugere comprometimento hemodinâmico relevante e acima de 1,0 associa-se a maior mortalidade. A pressão arterial média é estimada por (PAS + 2 × PAD) ÷ 3 e o índice modificado usa a média no denominador. Em uso de betabloqueador, marca-passo e em gestantes, os valores perdem acurácia.

Calculadora — sPESI

Específico do TEP 6 itens Prognóstico em 30 dias

O simplified Pulmonary Embolism Severity Index pontua 1 ponto por item presente e estima o risco de mortalidade em 30 dias. Zero ponto identifica um grupo de baixo risco, candidato a alta precoce ou tratamento ambulatorial. Qualquer ponto indica escore clínico de gravidade elevado.

Pontuação total
0
Baixo risco
Escore clínico de gravidade baixo — candidato a alta precoce se houver acesso confiável a anticoagulante e seguimento
O sPESI avalia gravidade clínica, e não a presença de obstrução. Um paciente já em choque é, por definição, de alto risco, qualquer que seja o escore. Sinais de disfunção do ventrículo direito ou biomarcadores elevados podem estar presentes mesmo com sPESI zero, e devem ser considerados na decisão de internar.

Estratificação do TEP — o que mudou em 2026

A primeira diretriz conjunta da American Heart Association e do American College of Cardiology dedicada ao TEP agudo, publicada em fevereiro de 2026, substituiu a divisão em baixo, intermediário e alto risco por categorias clínicas de A a E, com subcategorias. A lógica é deslocar a decisão da carga anatômica de trombo para o impacto fisiológico sobre o sistema cardiopulmonar.

Categoria Definição Implicação prática
A TEP assintomático, habitualmente achado incidental de imagem Pode receber alta do pronto-socorro sem internação, com anticoagulação e seguimento estruturado
B Sintomático com escore clínico de gravidade baixo — sPESI zero, PESI classe I ou II Alta precoce em geral apropriada, desde que haja acesso a medicação e seguimento confiável
C Sintomático com escore de gravidade elevado, com ou sem disfunção do VD e biomarcadores alterados Internar. O benefício de terapias avançadas é incerto: reservar para progressão clínica, com deliberação multidisciplinar
D Falência cardiopulmonar incipiente — deterioração hemodinâmica em curso Terapias avançadas podem ser consideradas nos subgrupos D1 e D2, individualizando risco de sangramento
E Falência cardiopulmonar estabelecida, com hipotensão persistente É o choque obstrutivo por TEP. Terapias avançadas são razoáveis na categoria E1: trombólise, terapia por cateter, trombectomia ou embolectomia
A mesma diretriz elevou a equipe de resposta ao TEP a recomendação de classe 1, e passou a preferir heparina de baixo peso molecular à não fracionada na anticoagulação parenteral inicial, além de anticoagulantes orais diretos aos antagonistas da vitamina K na fase oral. A heparina não fracionada segue preferida quando há instabilidade, disfunção renal grave, previsão de procedimento ou necessidade de reversão rápida.
A classificação europeia de 2019 em baixo, intermediário-baixo, intermediário-alto e alto risco continua amplamente usada no Brasil e nas provas. Na prática, o que corresponde ao choque obstrutivo é o antigo "alto risco" e a atual categoria E — e nele a indicação de reperfusão não é controversa.

Quando reperfundir

No TEP com hipotensão persistente ou parada cardíaca, ou seja, no choque obstrutivo propriamente dito, a reperfusão é a conduta que muda o desfecho. A trombólise sistêmica reduz mortalidade e recorrência nesse grupo, ao custo de risco relevante de sangramento maior e hemorragia intracraniana.

Indicação estabelecida

  • TEP com hipotensão persistente apesar de suporte
  • Parada cardíaca com TEP como causa presumida
  • Deterioração hemodinâmica sob anticoagulação plena
  • Categoria E da classificação de 2026

Decisão individualizada

  • Risco intermediário-alto com sinais de deterioração
  • Alto risco de sangramento — considerar terapia por cateter
  • Falha ou contraindicação à trombólise — trombectomia ou embolectomia
  • Colapso refratário — circulação extracorpórea como ponte
Na instabilidade franca, as contraindicações absolutas passam a ser relativas: o paciente que está morrendo do TEP tem pouco a perder. Essa é uma decisão de beira do leito, idealmente compartilhada com a equipe de resposta ao TEP e registrada em prontuário.

Calculadora — dose de trombolítico e heparina

Ajuste por peso Alteplase e tenecteplase Heparina não fracionada

Selecione o cenário e informe o peso. As doses seguem os regimes descritos nas diretrizes e nas bulas; confira sempre a apresentação disponível no seu serviço antes de administrar.

Alteplase — dose total
Alteplase — como administrar
Tenecteplase — alternativa
Heparina não fracionada — bolus (80 U/kg)
Heparina não fracionada — manutenção (18 U/kg/h)
Leitura do cenário
Informe o peso para calcular
A escolha do regime é clínica — a calculadora apenas converte o peso em dose
Ferramenta de apoio ao cálculo, não substitui a conferência da prescrição. Durante a infusão de alteplase, a heparina não fracionada é habitualmente suspensa ou reduzida e reiniciada sem bolus ao término, quando o TTPa estiver abaixo de duas vezes o controle. Heparina de baixo peso molecular não é a escolha quando se planeja trombólise, pela meia-vida longa e reversibilidade limitada.

Contraindicações à trombólise sistêmica

Absolutas

  • Acidente vascular cerebral hemorrágico prévio, em qualquer momento
  • Acidente vascular cerebral isquêmico nos últimos 6 meses
  • Neoplasia ou lesão estrutural do sistema nervoso central
  • Traumatismo craniano ou politrauma maior nas últimas 3 semanas
  • Sangramento ativo
  • Diátese hemorrágica conhecida
  • Suspeita de dissecção de aorta

Relativas

  • Ataque isquêmico transitório nos últimos 6 meses
  • Anticoagulação oral em curso
  • Gestação e primeira semana de pós-parto
  • Punção em sítio não compressível
  • Reanimação cardiopulmonar traumática ou prolongada
  • Hipertensão refratária, com sistólica acima de 180 mmHg
  • Doença hepática avançada
  • Endocardite infecciosa
  • Úlcera péptica ativa
Quando existe contraindicação relevante e o paciente permanece em choque, a saída não é ficar sem reperfusão: considere terapia dirigida por cateter, trombectomia mecânica ou embolectomia cirúrgica em centro habilitado, e acione a equipe de resposta ao TEP.

Sequência de abordagem

O suporte hemodinâmico existe para comprar tempo até a desobstrução. Ele deve ser iniciado em paralelo com o preparo do procedimento definitivo, nunca em substituição a ele.

  1. Monitorização completa, dois acessos calibrosos, oxigênio para manter saturação adequada e coleta de exames incluindo lactato.
  2. SUSPEITOU DE PNEUMOTÓRAX HIPERTENSIVO: descomprima agora. Não peça imagem, não transporte, não aguarde parecer.
  3. Volume com cautela: 250 a 500 mL de cristaloide e reavaliação imediata da resposta. Se não melhorou, não repita cegamente.
  4. Vasopressor precoce — noradrenalina é a primeira escolha para restaurar a pressão de perfusão coronariana do ventrículo direito.
  5. Considere inotrópico se houver disfunção contrátil do VD com pressão já corrigida: dobutamina em dose baixa, atento ao risco de vasodilatação.
  6. Se precisar ventilar, use volume corrente baixo, PEEP conservadora e evite hipoxemia, hipercapnia e acidose, que aumentam a resistência pulmonar.
  7. REMOVA A OBSTRUÇÃO: drenagem, pericardiocentese, trombólise, trombectomia ou desconexão do ventilador, conforme a causa.
  8. Reavalie com ultrassom após a intervenção e acione a equipe especializada quando houver refratariedade.
A indução anestésica para intubação é um momento de altíssimo risco no choque obstrutivo: sedativo com vasodilatação, perda do tônus simpático e início da pressão positiva podem precipitar parada cardíaca. Sempre que possível, corrija a obstrução antes de intubar, e tenha vasopressor correndo antes da indução.
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento: indicação, técnica ou posologia, alvo e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional, a apresentação disponível no seu serviço e a bula vigente.

Suporte hemodinâmico e ventilatório

Medidas de ponte que sustentam a perfusão enquanto o obstáculo é removido. No ventrículo direito falido, a ordem das decisões é diferente da do choque habitual.

Desobstrução — o tratamento de verdade

É o que efetivamente resolve. Cada causa tem um procedimento próprio, e a janela de oportunidade costuma ser medida em minutos.

As armadilhas do suporte

Fazer

  • Iniciar vasopressor cedo, antes de encher de volume.
  • Testar a resposta a volume com alíquotas pequenas e reavaliação.
  • Corrigir hipoxemia, hipercapnia e acidose, que pioram a resistência pulmonar.
  • Preparar o procedimento definitivo em paralelo ao suporte.
  • Reavaliar com ultrassom após cada intervenção.

Evitar

  • Repetir expansões volêmicas sem resposta documentada.
  • Intubar sem vasopressor pronto e sem corrigir a causa quando possível.
  • Usar PEEP alta e volume corrente elevado no ventrículo direito falido.
  • Adiar a descompressão pleural para confirmar por imagem.
  • Tratar hipotensão persistente apenas com aumento de dose da droga vasoativa.

Situações com manejo próprio

Cenário Particularidade O que fazer diferente
Trauma torácico Pneumotórax hipertensivo e tamponamento coexistem com hemorragia, e a hipovolemia pode mascarar a turgência jugular. Descompressão empírica diante de instabilidade com murmúrio abolido. Em ferimento penetrante precordial com parada, considerar toracotomia de reanimação.
Gestante A partir do segundo trimestre, o útero comprime a veia cava inferior em decúbito dorsal. O TEP é causa importante de mortalidade materna. Deslocamento uterino para a esquerda antes de qualquer outra medida. Anticoagular com heparina — os anticoagulantes orais diretos e a varfarina são contraindicados na gestação.
Ventilação mecânica Descompensação súbita sob pressão positiva sugere barotrauma, auto-PEEP, deslocamento ou obstrução do tubo. Desconectar do ventilador e ventilar com bolsa. Se a pressão melhora ao desconectar, o diagnóstico é hiperinsuflação dinâmica.
Asma e DPOC graves Aprisionamento aéreo gera auto-PEEP com hipotensão, facilmente confundida com choque séptico ou hipovolêmico. Reduzir frequência respiratória e volume corrente, prolongar o tempo expiratório e tratar o broncoespasmo. Não subir a PEEP às cegas.
Pós-operatório de cirurgia cardíaca Tamponamento pode ser localizado e com derrame pequeno; o ecocardiograma transtorácico tem acurácia limitada nas primeiras horas. Alta suspeição diante de queda do débito dos drenos seguida de instabilidade. Ecocardiograma transesofágico e reexploração cirúrgica precoce.
Hipertensão pulmonar crônica O VD é hipertrofiado e dependente de pré-carga e de ritmo sinusal; descompensa por infecção, arritmia ou suspensão de medicação. Manter a medicação específica, restaurar o ritmo sinusal, evitar hipoxemia e acidose, e envolver o centro de referência precocemente.
Doente oncológico Derrame pericárdico neoplásico, trombose associada ao câncer e compressão de veia cava superior por massa mediastinal. Drenagem com cateter de permanência e avaliação da janela pericárdica. Anticoagulação exige avaliação individual do risco de sangramento.
Prótese valvar Trombose de prótese pode se manifestar como choque súbito, com sopro novo ou variável e história de anticoagulação inadequada. Ecocardiograma urgente, incluindo transesofágico. Trombólise ou cirurgia conforme o lado acometido, o tamanho do trombo e a gravidade.
Grande queimado e abdome agudo Pressão intra-abdominal elevada reduz o retorno venoso e eleva as pressões no ventilador. Medir a pressão intravesical, otimizar sedação e analgesia, drenar coleções e considerar descompressão cirúrgica.
Criança A hipotensão é achado tardio: taquicardia e má perfusão precedem a queda de pressão. Para descompressão por agulha, o segundo espaço intercostal na linha hemiclavicular segue recomendado, com agulha e dreno de calibre adequado à idade.

Erros comuns

  • Encher o paciente de volume porque "está hipotenso", sem olhar a veia cava inferior nem o ventrículo direito.
  • Pedir radiografia antes de descomprimir um pneumotórax hipertensivo clinicamente evidente.
  • Atribuir a turgência jugular à insuficiência cardíaca sem examinar os pulmões — que no obstrutivo estão limpos.
  • Interpretar dilatação do ventrículo direito como sinal exclusivo de TEP, esquecendo infarto de VD e hipertensão pulmonar crônica.
  • Pedir dímero-D em paciente já em choque, quando o resultado não muda a conduta.
  • Transportar para a tomografia um paciente instável que ainda não foi estabilizado.
  • Intubar antes de instalar vasopressor e antes de tentar remover o obstáculo.
  • Usar PEEP alta e volume corrente elevado em ventrículo direito falido.
  • Subir indefinidamente a dose de vasopressor sem revisar por que o choque não responde.
  • Descartar tamponamento por ausência da tríade de Beck, que é pouco frequente.
  • Esquecer a auto-PEEP no asmático ventilado que fica hipotenso após a intubação.
  • Deixar a agulha de descompressão no lugar e considerar o caso resolvido, sem drenagem torácica definitiva.
  • Não acionar precocemente a equipe de resposta ao TEP e a retaguarda cirúrgica ou hemodinâmica.

Resumo do fluxo

  1. Choque com jugulares cheias e pulmões limpos: pense em obstrução até prova em contrário.
  2. Ultrassom à beira do leito nas quatro janelas — pericárdio, ventrículo direito, veia cava inferior e pleura.
  3. Pneumotórax hipertensivo suspeitado: descomprima imediatamente, sem imagem prévia.
  4. Tamponamento confirmado: pericardiocentese guiada por ultrassom ou drenagem cirúrgica.
  5. TEP com hipotensão persistente: anticoagule e indique reperfusão — trombólise, cateter ou embolectomia.
  6. Suporte em paralelo: volume em alíquotas pequenas, noradrenalina precoce e ventilação protetora.
  7. Sob ventilação e hipotenso: desconecte do ventilador e avalie hiperinsuflação dinâmica.
  8. Reavalie com ultrassom depois de cada intervenção e acione a equipe especializada se não houver resposta.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

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  13. Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) e Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Protocolos e diretrizes vigentes sobre choque, tromboembolismo pulmonar e doenças do pericárdio.

Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, escalas e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação.

Informações rápidas

Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.

O essencial

Suspeitar

Pense em choque obstrutivo diante de jugulares distendidas com pulmões limpos, de hipotensão que não responde a volume nem a vasopressor, de piora súbita logo após intubar ou ventilar, e de parada em atividade elétrica sem pulso com QRS estreito e rápido.

As três principais

TEP de alto risco, tamponamento cardíaco e pneumotórax hipertensivo respondem pela quase totalidade dos casos. Não esqueça da auto-PEEP e da hiperinsuflação dinâmica no paciente ventilado, que é a causa mais subdiagnosticada de todas.

Confirmar à beira do leito

O ultrassom decide em minutos: derrame pericárdico com colapso das câmaras direitas, ventrículo direito dilatado com septo em sinal do D, veia cava inferior pletórica, e ausência de deslizamento pleural com ponto pulmonar.

Desobstruir

O tratamento é remover o obstáculo, não titular droga. Volume com cautela, em alíquotas de 250 a 500 mL com reavaliação; noradrenalina precoce para proteger a perfusão coronariana do ventrículo direito; ventilação com volume e pressão baixos.

Números rápidos

Volume de teste: 250 a 500 mL de cristaloide, com reavaliação imediata da resposta.

VD dilatado: relação VD/VE acima de 0,9 a 1,0 na janela apical de 4 câmaras.

VCI pletórica: diâmetro acima de 2 cm com colapso inspiratório mínimo.

Alteplase: 100 mg em 2 horas; na parada cardíaca, 50 mg em bólus, repetível.

Descompressão no adulto: 5º espaço intercostal, à frente da linha axilar média, com agulha longa.

Não esqueça

Jugular cheia com pulmão limpo é choque obstrutivo até prova em contrário.

Pneumotórax hipertensivo é diagnóstico clínico: descomprima antes da imagem.

Vasopressor entra cedo para proteger a perfusão coronariana do ventrículo direito.

Volume em excesso piora o débito no ventrículo direito já dilatado.

Intubar sem corrigir o obstáculo pode precipitar parada cardíaca.

Em provas / residência

A banca cobra o perfil hemodinâmico (débito baixo, resistência alta, pré-carga alta), a tríade de Beck e a descompressão imediata do pneumotórax hipertensivo sem radiografia.

Decore: no obstrutivo o tratamento é o procedimento; alteplase 100 mg em 2 horas; ventrículo direito dilatado com septo em D e veia cava inferior pletórica.

Mais informações nas abas do artigo.

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