Choque Neurogênico
É o choque que não taquicardiza. A perda súbita do tônus simpático abaixo da lesão medular deixa o paciente hipotenso, bradicárdico e quente — exatamente o oposto do que se espera no politraumatizado. No trauma, porém, ele é sempre um diagnóstico de exclusão: presumir choque neurogênico antes de afastar hemorragia é um erro que mata.
Reconhecer
- Hipotensão sem taquicardia, muitas vezes com bradicardia
- Pele quente, seca e corada abaixo da lesão
- Lesão medular acima de T6, tipicamente cervical
- Pressão de pulso alargada, não estreitada
Não confundir
- Choque neurogênico é hemodinâmico e sistêmico
- Choque medular é neurológico: arreflexia transitória
- São fenômenos distintos, com nomes parecidos
- Podem coexistir no mesmo paciente
Excluir hemorragia
- No trauma, é sempre diagnóstico de exclusão
- Hemorragia e lesão medular coexistem com frequência
- FAST, radiografias e reavaliação seriada
- Bradicardia não afasta sangramento ativo
Perfundir a medula
- Volume até a euvolemia, sem sobrecarregar
- Noradrenalina como vasopressor de escolha
- Meta de pressão arterial média por vários dias
- Atropina para bradicardia sintomática
O que é choque neurogênico
Choque neurogênico é um choque distributivo causado pela perda súbita do tônus simpático abaixo de uma lesão do sistema nervoso central, tipicamente da medula espinhal. Sem a descarga simpática, o leito vascular perde o tônus, a resistência vascular sistêmica despenca e o sangue se acumula na periferia — há volume circulante suficiente, mas ele está no lugar errado.
O que torna esse choque peculiar é a ausência da resposta compensatória. Nos demais choques, o organismo responde com taquicardia e vasoconstrição. Aqui, as fibras simpáticas cardioaceleradoras que saem de T1 a T4 também estão desconectadas, e o tônus vagal, mediado pelo nervo vago, fica sem oposição. O resultado é a assinatura clássica: hipotensão com bradicardia e pele quente.
Por que acontece
A cadeia de eventos é direta e explica cada achado do exame físico.
- A lesão medular interrompe as vias simpáticas descendentes que trafegam pela coluna intermediolateral, entre T1 e L2.
- Abaixo da lesão, arteríolas e vênulas perdem o tônus vasoconstritor: cai a resistência vascular sistêmica e o sangue se acumula no leito venoso de capacitância.
- Cai o retorno venoso e, com ele, a pré-carga e o débito cardíaco — apesar de a volemia total estar preservada.
- Em lesões acima de T6, as fibras cardioaceleradoras de T1 a T4 também são perdidas: o coração não consegue taquicardizar para compensar.
- O tônus vagal, que chega ao coração pelo nervo vago e independe da medula, passa a agir sem oposição — daí a bradicardia paradoxal.
- Sem vasoconstrição cutânea, a pele fica quente, seca e corada, e o paciente perde a capacidade de regular a própria temperatura.
- A hipoperfusão da medula já lesada agrava a lesão secundária, fechando um ciclo em que a hipotensão piora o desfecho neurológico.
Choque neurogênico não é choque medular
Os dois termos são confundidos com enorme frequência, inclusive em prontuário. São fenômenos diferentes, que podem ocorrer no mesmo paciente e ao mesmo tempo, mas descrevem coisas distintas.
| Aspecto | Choque neurogênico | Choque medular |
|---|---|---|
| Natureza | Fenômeno hemodinâmico e sistêmico | Fenômeno neurológico e local |
| Definição | Hipotensão com hipoperfusão por perda do tônus simpático | Perda transitória de toda a função medular abaixo da lesão, com flacidez e arreflexia |
| Achados | Hipotensão, bradicardia, pele quente e seca, pressão de pulso alargada | Paralisia flácida, arreflexia, anestesia e perda do tônus esfincteriano |
| Nível da lesão | Sobretudo acima de T6 | Qualquer nível medular |
| Duração | Dias a semanas, conforme a lesão | Dias a semanas, até o retorno dos reflexos |
| Marcador da resolução | Estabilidade hemodinâmica sem vasopressor | Retorno do reflexo bulbocavernoso, geralmente o primeiro a voltar |
| Tratamento | Volume, vasopressor e meta de pressão arterial média | Não há tratamento próprio: é um estado transitório a ser aguardado |
Comparando com os outros choques
Do ponto de vista hemodinâmico, o choque neurogênico é distributivo — como o séptico e o anafilático. O que o separa dos demais é a frequência cardíaca e a temperatura da pele.
| Tipo | Frequência | Pele | Resistência vascular | Pressão de pulso |
|---|---|---|---|---|
| Hemorrágico | Taquicardia | Fria e pálida | Alta | Estreitada |
| Cardiogênico | Taquicardia | Fria e úmida | Alta | Estreitada |
| Séptico | Taquicardia | Quente no início | Baixa | Alargada |
| Neurogênico | Bradicardia ou normocardia | Quente e seca | Baixa | Alargada |
Por que isso importa
Cada episódio de hipotensão agrava a isquemia da medula já lesada e piora a recuperação funcional.
A meta pressórica é uma das poucas intervenções disponíveis capazes de influenciar o desfecho neurológico.
Presumir choque neurogênico em politraumatizado atrasa o diagnóstico de hemorragia.
Lesões cervicais altas comprometem o diafragma e exigem antecipação da intubação.
A necessidade de vasopressor costuma se estender por dias, não por horas.
De onde vem
A causa mais frequente é, de longe, o trauma raquimedular cervical ou torácico alto. Mas existe um conjunto relevante de causas não traumáticas, algumas iatrogênicas, que aparecem em contextos completamente diferentes da sala de trauma.
Trauma raquimedular
Acidentes de trânsito, quedas de altura, mergulho em água rasa, ferimentos por arma de fogo e trauma esportivo.
Predomina em lesões cervicais e torácicas altas. Quanto mais alta e mais completa a lesão, maior a probabilidade e a gravidade do choque.
É a causa mais comum e a que exige exclusão obrigatória de hemorragia.Bloqueio neuroeixo alto
Raquianestesia ou peridural com dispersão cefálica excessiva, produzindo simpatectomia farmacológica extensa.
É a causa iatrogênica clássica, com quadro de instalação rápida no centro cirúrgico e habitualmente reversível.
Reconhecimento imediato e suporte precoce evitam evolução para parada.Causas não traumáticas
Mielite transversa, isquemia medular, abscesso e hematoma epidural, tumor com compressão medular e síndrome de Guillain-Barré com disautonomia.
A instalação costuma ser mais gradual, o que faz o quadro passar despercebido por mais tempo.
Nesses casos, a compressão medular tratável é a hipótese que não pode ser perdida.Panorama das causas
| Causa | Contexto típico | Observação |
|---|---|---|
| Trauma cervical | Colisão automobilística, queda, mergulho em água rasa, atropelamento | Maior risco de choque neurogênico e de comprometimento respiratório; lesões acima de C5 ameaçam o diafragma |
| Trauma torácico alto | Trauma de alta energia com fratura ou luxação vertebral | Lesões acima de T6 concentram o risco; abaixo disso, o quadro tende a ser mais brando |
| Ferimento por arma de fogo | Trauma penetrante de tronco e pescoço | Alta chance de lesão vascular e hemorragia associadas — a exclusão de sangramento é ainda mais crítica |
| Raquianestesia alta | Cesariana, cirurgia ortopédica e urológica sob bloqueio | Instalação em minutos, com bradicardia e náusea; a gestante tem risco somado de compressão aortocava |
| Hematoma ou abscesso epidural | Anticoagulação, punção neuroaxial, bacteremia, usuário de droga injetável | Dor local com déficit progressivo; a descompressão cirúrgica é urgente e tempo-dependente |
| Compressão medular por tumor | Neoplasia com metástase vertebral, mieloma | Déficit progressivo com dor prévia; corticoide e radioterapia ou cirurgia conforme o caso |
| Isquemia medular | Cirurgia de aorta, dissecção aórtica, hipotensão prolongada | Frequentemente compromete o território da artéria espinhal anterior, poupando a propriocepção |
| Mielite transversa | Quadro pós-infeccioso ou desmielinizante | Instalação em horas a dias; a disautonomia pode ser expressiva |
| Síndrome de Guillain-Barré | Fraqueza ascendente após quadro infeccioso | Disautonomia com oscilação entre hipertensão e hipotensão, além de arritmias |
| Manipulação cirúrgica da medula | Cirurgia de coluna com lesão intraoperatória | A elevação imediata da pressão arterial é a primeira medida diante de perda de sinais no monitoramento neurofisiológico |
O que imita choque neurogênico
O paciente em uso crônico de betabloqueador pode sangrar sem taquicardizar. A pele, porém, permanece fria e a pressão de pulso, estreitada.
Hipotensão com bradicardia de curta duração, com recuperação espontânea e sem déficit neurológico associado.
Hipotensão no politraumatizado com jugulares distendidas e murmúrio abolido — choque obstrutivo, não distributivo.
Hipertensão com bradicardia por hipertensão intracraniana. É o oposto pressórico do choque neurogênico e exige conduta distinta.
Betabloqueadores, bloqueadores de canal de cálcio, clonidina e opioides cursam com hipotensão e bradicardia.
Bradicardia e hipotensão em vítima exposta; frequentemente coexiste com o próprio trauma raquimedular.
A abordagem inicial
No trauma, a sequência do xABCDE não muda. O que muda é a interpretação: diante de hipotensão, a hemorragia continua sendo a hipótese principal até ser afastada, e o choque neurogênico entra depois.
- Controle de hemorragia exsanguinante, via aérea com proteção da coluna cervical e ventilação — nessa ordem.
- PROCURE SANGRAMENTO PRIMEIRO: tórax, abdome, pelve, retroperitônio, ossos longos e ferimentos externos. FAST e radiografias na sala.
- Observe o padrão hemodinâmico: hipotensão com bradicardia e pele quente aponta para neurogênico; taquicardia com pele fria aponta para hemorragia.
- Faça o exame neurológico dirigido: força por miótomos, sensibilidade por dermátomos, tônus retal e reflexo bulbocavernoso.
- Defina o nível neurológico da lesão e se ela é completa ou incompleta, registrando o horário do exame.
- Inicie a reposição volêmica até a euvolemia e associe vasopressor precocemente se a hipotensão persistir.
- Solicite imagem: tomografia de coluna para o osso, ressonância magnética para medula, ligamentos e compressão.
- Acione a neurocirurgia ou a cirurgia de coluna desde o primeiro momento — o tempo até a descompressão importa.
Achados que sustentam o diagnóstico
Neurogênico versus hemorrágico
| Parâmetro | Choque neurogênico | Choque hemorrágico |
|---|---|---|
| Frequência cardíaca | Bradicardia ou normocardia | Taquicardia progressiva |
| Pele | Quente, seca e corada abaixo da lesão | Fria, pálida e úmida |
| Tempo de enchimento capilar | Normal ou rápido | Prolongado |
| Pressão de pulso | Alargada | Estreitada |
| Resposta ao volume | Parcial e transitória | Boa, se o sangramento estiver controlado |
| Lactato | Frequentemente normal ou pouco elevado | Elevado e proporcional à gravidade |
| Hemoglobina seriada | Estável | Em queda |
| FAST e imagem | Sem foco de sangramento | Líquido livre, hemotórax, fratura pélvica |
| Déficit neurológico | Presente e com nível definido | Ausente, salvo trauma associado |
Exames e monitorização
Exame inicial para avaliar fraturas, luxações e alinhamento. Costuma ser feita em conjunto com a tomografia de corpo inteiro no politraumatizado.
Padrão para avaliar a medula, ligamentos, hérnia discal traumática, hematoma e compressão persistente. Ideal antes da cirurgia, desde que não atrase a descompressão.
Rastreio de sangramento em cavidades. Um exame negativo não exclui hemorragia retroperitoneal ou pélvica.
Recomendada sempre que houver meta pressórica a ser mantida por dias, porque permite titulação contínua do vasopressor.
Lactato persistentemente elevado sugere hemorragia oculta ou outra causa de hipoperfusão, e não apenas vasoplegia.
Capacidade vital, força inspiratória e padrão ventilatório orientam a necessidade de intubação em lesões cervicais.
Calculadora — pressão arterial média e meta de perfusão
Informe os dados e escolha a meta adotada pelo seu serviço. A calculadora mostra a pressão arterial média atual, a distância até a meta e sinaliza bradicardia relevante.
Calculadora — escore motor ASIA
Pontue cada músculo-chave de 0 a 5 conforme a escala de força. O escore motor total varia de 0 a 100 pontos e é a principal medida objetiva para acompanhar a evolução ao longo dos dias.
Membros superiores
Membros inferiores
Escala de deficiência ASIA
A classificação em graus de A a E define se a lesão é completa ou incompleta e é o principal preditor de recuperação funcional. Ela depende da preservação sacral, que deve ser sempre pesquisada.
| Grau | Denominação | Definição |
|---|---|---|
| A | Completa | Nenhuma função motora ou sensitiva preservada nos segmentos sacrais S4 e S5. |
| B | Incompleta sensitiva | Sensibilidade preservada abaixo do nível neurológico, incluindo S4 e S5, sem função motora preservada. |
| C | Incompleta motora | Função motora preservada abaixo do nível, com mais da metade dos músculos-chave com força menor que 3. |
| D | Incompleta motora | Função motora preservada abaixo do nível, com pelo menos metade dos músculos-chave com força de 3 ou mais. |
| E | Normal | Função motora e sensitiva normais em paciente que teve déficit prévio documentado. |
A meta pressórica e sua controvérsia
A lógica é a de pressão de perfusão medular: a medula lesada tem autorregulação comprometida, o edema eleva a pressão intraespinhal e o fluxo passa a depender diretamente da pressão arterial média. Manter a pressão alta busca salvar tecido na zona de penumbra ao redor da lesão.
Calculadora — infusão de droga vasoativa
Converte a dose desejada em velocidade de bomba de infusão, usando as diluições mais comuns. Confira sempre a diluição padronizada no seu serviço antes de aplicar.
Escolha do vasopressor
| Droga | Perfil | Vantagem | Cuidado |
|---|---|---|---|
| Noradrenalina | Alfa potente com beta-1 discreto | Primeira escolha: corrige a vasoplegia e ainda sustenta a frequência cardíaca | Necessita acesso central para uso prolongado; risco de isquemia periférica |
| Fenilefrina | Alfa-1 puro | Prática, disponível e útil em bólus na sala de anestesia | Sem atividade beta: causa bradicardia reflexa e pode agravar o quadro em lesão cervical |
| Dopamina | Dose-dependente, com efeito beta e alfa | Aumenta a frequência cardíaca, o que interessa na bradicardia associada | Mais arritmias que a noradrenalina; caiu em desuso como primeira linha |
| Adrenalina | Alfa e beta potentes | Reserva para hipotensão refratária com bradicardia grave | Taquiarritmias, hiperlactatemia e hiperglicemia |
| Dobutamina | Beta-1 predominante | Considerada quando há disfunção contrátil associada | Vasodilatação com piora da hipotensão — não é vasopressor |
| Vasopressina | Receptores V1, independente do sistema adrenérgico | Adjuvante poupador de catecolamina em vasoplegia refratária | Não corrige bradicardia; risco de isquemia digital e mesentérica |
Sequência de abordagem
Duas prioridades correm em paralelo: sustentar a perfusão da medula e remover a compressão, sem nunca perder de vista que a hemorragia vem primeiro no politraumatizado.
- Imobilização da coluna e cuidado com transferências em bloco, mantendo a restrição do movimento até a liberação por imagem e exame.
- EXCLUA HEMORRAGIA: FAST, radiografia de tórax e pelve, exame dirigido. Não rotule como neurogênico sem essa etapa.
- Reposição volêmica até a euvolemia, com cristaloide em alíquotas e reavaliação — evitando tanto a hipovolemia quanto a sobrecarga.
- Vasopressor precoce se a hipotensão persistir após volume adequado. Noradrenalina é a escolha preferencial.
- Trate a bradicardia sintomática com atropina; considere marca-passo transcutâneo ou transvenoso nos casos refratários.
- Estabeleça e registre a meta de pressão arterial média, com pressão invasiva e reavaliação contínua.
- Avalie a via aérea e a mecânica respiratória: lesões cervicais altas exigem antecipar a intubação, e não esperar a fadiga.
- ACIONE A CIRURGIA DE COLUNA: a descompressão dentro de 24 horas melhora o desfecho neurológico de forma consistente.
- Inicie os cuidados de suporte: prevenção de lesão por pressão, profilaxia de tromboembolismo venoso, sonda vesical, controle térmico e profilaxia gástrica.
Cada card abre o detalhamento: indicação, posologia, alvo e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional, a apresentação disponível no seu serviço e a bula vigente.
Perfusão e ritmo
O objetivo não é apenas normalizar a pressão: é manter uma meta elevada por dias para preservar tecido medular ainda viável.
Medula, via aérea e suporte
O que define o desfecho funcional a longo prazo: descompressão no tempo certo, ventilação antecipada e prevenção rigorosa de complicações.
Fazer e evitar
Fazer
- Afastar hemorragia antes de aceitar o diagnóstico.
- Repor volume até a euvolemia e só então escalar vasopressor.
- Registrar a meta de pressão arterial média em prescrição.
- Instalar pressão arterial invasiva quando houver meta a cumprir.
- Acionar a cirurgia de coluna nas primeiras horas.
- Repetir e datar o exame neurológico.
Evitar
- Expandir volume indefinidamente para corrigir vasoplegia.
- Usar fenilefrina isolada em lesão cervical com bradicardia.
- Confundir choque neurogênico com choque medular no prontuário.
- Adiar a intubação em lesão cervical alta até a fadiga instalada.
- Retardar a imagem da medula quando há déficit progressivo.
- Prescrever corticoide de forma automática, sem discutir riscos.
Situações com manejo próprio
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Politraumatizado | Hemorragia e lesão medular coexistem com frequência, e a bradicardia pode mascarar o sangramento. | Tratar a hemorragia como prioridade e sustentar a perfusão medular em paralelo. Reavaliar de forma seriada, com hemoglobina e lactato. |
| Lesão cervical alta | Acima de C5 há comprometimento do diafragma; entre C5 e T1, perda da musculatura intercostal com respiração paradoxal. | Antecipar a intubação com técnica que preserve o alinhamento cervical. Monitorar capacidade vital e força inspiratória. |
| Raquianestesia alta | Simpatectomia farmacológica de instalação rápida, com náusea, bradicardia e hipotensão em minutos. | Elevar membros inferiores, expandir volume, administrar vasopressor e atropina. Suporte ventilatório se houver bloqueio motor alto. |
| Gestante | Soma-se a compressão aortocava pelo útero à vasoplegia, agravando a hipotensão. | Deslocamento uterino para a esquerda antes de qualquer outra medida. Vasopressor com atenção ao fluxo uteroplacentário. |
| Criança | Pode haver lesão medular sem alteração radiográfica, pela elasticidade da coluna infantil. | Valorizar o exame neurológico mesmo com tomografia normal e considerar ressonância magnética. Metas pressóricas ajustadas à idade. |
| Idoso | Síndrome medular central por hiperextensão em queda da própria altura, frequentemente sem fratura evidente. | Suspeitar diante de déficit maior em membros superiores que inferiores. Metas pressóricas ponderadas pelo risco cardiovascular. |
| Fase crônica | Após semanas, instala-se o risco de disreflexia autonômica, com hipertensão paroxística grave. | Identificar e remover o estímulo desencadeante — bexiga distendida é a causa mais comum — antes de medicar. |
| Compressão medular não traumática | Tumor, abscesso ou hematoma epidural, com déficit progressivo e dor prévia. | Imagem urgente e descompressão. Corticoide tem papel específico na compressão neoplásica, diferente do trauma. |
| Guillain-Barré | Disautonomia com oscilação entre crises hipertensivas e hipotensão, além de arritmias. | Monitorização contínua, cautela com drogas de meia-vida longa e vigilância da função respiratória. |
| Cirurgia de coluna eletiva | Perda de sinais no monitoramento neurofisiológico intraoperatório sugere sofrimento medular. | A primeira medida é elevar imediatamente a pressão arterial, junto com a revisão do gesto cirúrgico. |
Erros comuns
- Rotular a hipotensão como neurogênica antes de excluir hemorragia no politraumatizado.
- Assumir que a ausência de taquicardia afasta sangramento ativo.
- Confundir choque neurogênico com choque medular ao registrar em prontuário.
- Expandir volume de forma indefinida para corrigir um problema que é de tônus vascular.
- Usar fenilefrina isolada em lesão cervical, agravando a bradicardia por reflexo.
- Não estabelecer nem registrar a meta de pressão arterial média na prescrição.
- Manter apenas medida não invasiva intermitente em paciente com meta pressórica a cumprir.
- Adiar a intubação em lesão cervical alta até que a fadiga respiratória se instale.
- Retardar o acionamento da cirurgia de coluna e perder a janela de 24 horas.
- Prescrever metilprednisolona automaticamente, sem discutir a controvérsia e os riscos.
- Esquecer a profilaxia de tromboembolismo venoso em paciente com risco muito alto.
- Não avaliar a preservação sacral e classificar a lesão como completa prematuramente.
- Ignorar a poiquilotermia e deixar o paciente exposto por período prolongado.
- Não sondar a bexiga e permitir distensão vesical, que é gatilho de bradicardia e de disreflexia.
Resumo do fluxo
- Hipotensão no trauma: procure sangramento primeiro, sempre.
- Padrão de hipotensão com bradicardia e pele quente e seca sugere choque neurogênico.
- Confirme o déficit neurológico, defina o nível e registre o exame com horário.
- Reponha volume até a euvolemia, em alíquotas e com reavaliação.
- Inicie noradrenalina se a hipotensão persistir e trate a bradicardia sintomática com atropina.
- Estabeleça a meta de pressão arterial média e monitore de forma invasiva.
- Avalie a via aérea: lesão cervical alta exige antecipar a intubação.
- Acione a cirurgia de coluna: descompressão dentro de 24 horas melhora o desfecho.
- Mantenha os cuidados de suporte e reavalie o exame neurológico diariamente.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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- American College of Surgeons. Advanced Trauma Life Support (ATLS), edições recentes — capítulo de trauma raquimedular e diagnóstico diferencial do choque.
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- Sociedade Brasileira de Neurocirurgia e Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Protocolos e recomendações vigentes sobre trauma raquimedular e manejo do choque.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, escalas e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação.
Informações rápidas
Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.
O essencial
Reconhecer
A tríade é hipotensão sem taquicardia, frequentemente com bradicardia, e pele quente, seca e corada abaixo da lesão. A pressão de pulso é alargada, e não estreitada. Ocorre sobretudo em lesões medulares acima de T6, tipicamente cervicais.
Não confundir
Choque neurogênico é um fenômeno hemodinâmico e sistêmico, com hipotensão por perda do tônus simpático. Choque medular é um fenômeno neurológico e local: perda transitória de toda a função abaixo da lesão, com flacidez e arreflexia. Podem coexistir no mesmo paciente.
Excluir hemorragia
No trauma é sempre diagnóstico de exclusão. Hemorragia e lesão medular coexistem com frequência, e a bradicardia não afasta sangramento ativo. FAST, radiografias, hemoglobina seriada e reavaliação clínica vêm antes do rótulo.
Perfundir a medula
Volume até a euvolemia sem sobrecarregar, noradrenalina como vasopressor de escolha, atropina para bradicardia sintomática e meta de pressão arterial média mantida por dias. A meta existe para reduzir a lesão medular secundária.
Números rápidos
Meta clássica: pressão arterial média de 85 a 90 mmHg pelos primeiros 7 dias.
Faixa de 2023: limite inferior de 75 a 80 mmHg e superior de 90 a 95, por 3 a 7 dias.
Nível de risco: lesões acima de T6 concentram o choque neurogênico.
Descompressão: cirurgia dentro de 24 horas melhora a recuperação neurológica.
Atropina: 0,5 a 1 mg por via intravenosa, repetível até 3 mg no total.
Não esqueça
No trauma, é sempre diagnóstico de exclusão: hemorragia primeiro.
Choque neurogênico é hemodinâmico; choque medular é neurológico.
Hipotensão com bradicardia e pele quente e seca é a tríade.
Noradrenalina é preferida à fenilefrina em lesões cervicais.
A meta pressórica existe para reduzir a lesão medular secundária.
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A banca cobra a diferença entre choque neurogênico e choque medular, a tríade de hipotensão com bradicardia e pele quente, e o fato de ser diagnóstico de exclusão no trauma.
Decore: fibras cardioaceleradoras de T1 a T4; lesões acima de T6; meta de pressão arterial média de 85 a 90 mmHg por 7 dias; descompressão em até 24 horas.
