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Emergência & UTI • Avaliação inicial

Síncope

Perda transitória da consciência por hipoperfusão cerebral global, de início rápido, curta duração e recuperação espontânea completa. Na emergência, o objetivo não é descobrir a causa de todos os casos — é separar o desmaio benigno da síncope que mata, com anamnese, exame físico com pressão em ortostase e um eletrocardiograma.

É mesmo síncope? ECG em todos Bandeiras vermelhas Internar ou dar alta
Tempo de leitura: 12 min
Atualizado em: 10/08/2026

É síncope?

  • Perda de consciência súbita e breve
  • Perda do tônus postural
  • Recuperação espontânea e completa
  • Sem confusão pós-ictal prolongada

Os três pilares

  • Anamnese detalhada do episódio e com testemunhas
  • Exame físico com pressão em decúbito e em pé
  • ECG de 12 derivações em todos os pacientes
  • Respondem cerca de metade dos casos

Bandeiras vermelhas

  • Durante esforço ou em decúbito
  • Palpitações imediatamente antes
  • Sem pródromo, com trauma facial
  • Cardiopatia, ECG alterado ou morte súbita na família

Decidir o destino

  • Estratifique com o Canadian Syncope Risk Score
  • Baixo risco: alta com plano e seguimento
  • Médio/alto risco: monitorização e investigação
  • Evite o "pacote" de exames de baixo rendimento

Definição

Síncope é a perda transitória da consciência causada por hipoperfusão cerebral global, caracterizada por início rápido, curta duração e recuperação espontânea e completa. Os quatro elementos da definição precisam estar presentes — e é o mecanismo (hipoperfusão) que separa a síncope das demais causas de perda transitória da consciência.

Por isso, ficam fora da definição a crise epiléptica, o traumatismo cranioencefálico, a intoxicação, a hipoglicemia e a pseudossíncope psicogênica: nelas a consciência se perde por outro mecanismo, e a conduta é completamente diferente.

Na emergência, a pergunta não é "qual a causa exata?", e sim "este paciente tem risco de morrer nos próximos 30 dias?". A maioria dos casos é benigna; a minoria perigosa é o alvo da avaliação inicial.

Fisiopatologia

O fluxo sanguíneo cerebral depende da pressão arterial média, que é o produto do débito cardíaco pela resistência vascular sistêmica. Uma interrupção do fluxo por 6 a 8 segundos, ou uma queda da pressão sistólica para valores em torno de 50–60 mmHg no nível do coração, já é suficiente para causar perda completa da consciência.

Qualquer mecanismo que derrube o débito (bradiarritmia, taquiarritmia, obstrução ao fluxo, falência de bomba) ou a resistência (vasodilatação reflexa, falência autonômica, hipovolemia) pode produzir o mesmo quadro clínico. O desfecho, porém, é radicalmente diferente conforme o mecanismo.

O que acontece no episódio típico

  • Pródromo — calor, náusea, sudorese fria, visão em túnel, zumbido, palidez (pode faltar).
  • Perda do tônus — queda ao solo, com risco de trauma.
  • Inconsciência breve — habitualmente segundos, raramente mais de 1–2 minutos.
  • Mioclonias — abalos breves ocorrem em 10–15% dos episódios vasovagais e não indicam epilepsia.
  • Recuperação — rápida e completa, sem confusão prolongada; fadiga residual é comum.
Detalhe que ajuda no diagnóstico

Na síncope, a posição horizontal restaura o fluxo cerebral e encerra o evento. Se o paciente permanece inconsciente mesmo deitado, pense em outro mecanismo — ou em uma causa cardíaca sustentada.

Números que importam

A síncope responde por cerca de 1% a 3% dos atendimentos em pronto-socorro e por parcela relevante das internações em clínica médica. A incidência sobe de forma marcante após os 70 anos, e é justamente no idoso que a proporção de causas cardíacas aumenta.

Emergência

1–3% de todas as visitas ao pronto-socorro.

Idade

Incidência cresce muito após os 70 anos.

História

Anamnese e exame físico rendem o diagnóstico em cerca de 45% dos casos.

ECG

Diagnóstico em 2–11%, mas alterado em até metade dos pacientes.

Prognóstico

A síncope cardíaca é a de maior mortalidade — e a que precisa ser afastada.

As três perguntas da avaliação inicial

Foi realmente síncope?

Perda transitória da consciência por hipoperfusão cerebral, com todos os elementos da definição — ou trata-se de crise epiléptica, queda sem perda de consciência, intoxicação, hipoglicemia ou pseudossíncope?

A causa está definida?

Gatilho típico, pródromo clássico e história compatível fecham a maioria das síncopes reflexas. Quando a etiologia é altamente provável na avaliação clínica, exames complementares frequentemente são desnecessários.

Há características de alto risco?

Se a causa não está clara — ou mesmo quando parece clara mas há bandeiras vermelhas —, o que define a conduta é a estratificação de risco de eventos graves em 30 dias.

Essas três perguntas são a espinha dorsal das diretrizes de síncope e organizam a consulta inteira: definir o evento, tentar a etiologia, estratificar o risco.

Os três grandes grupos

A classificação fisiopatológica organiza o raciocínio e prediz o prognóstico: a síncope reflexa é a mais comum e a mais benigna; a cardíaca é a menos comum e a mais letal.

Grupo Subtipos e causas Perfil clínico
Reflexa
(neuromediada)
Vasovagal (emoção, dor, ortostase prolongada, ambiente quente e lotado); situacional (micção, defecação, tosse, deglutição, riso, pós-prandial, após esforço); hipersensibilidade do seio carotídeo; formas atípicas sem gatilho identificável. Causa mais frequente em todas as faixas etárias. Pródromos autonômicos longos, episódios recorrentes desde jovem, ausência de cardiopatia. Prognóstico benigno — a morbidade vem do trauma da queda.
Hipotensão ortostática Induzida por fármacos (a causa mais comum: diuréticos, vasodilatadores, alfabloqueadores, nitratos, antidepressivos, antipsicóticos); depleção volêmica (sangramento, diarreia, vômito, desidratação); falência autonômica primária (doença de Parkinson, atrofia de múltiplos sistemas, demência por corpos de Lewy) e secundária (diabetes, amiloidose, uremia, lesão medular). Sintomas ao levantar ou logo após, piores pela manhã, após refeições, com calor ou álcool. Muito prevalente no idoso polimedicado.
Cardíaca Arritmias: disfunção do nó sinusal, bloqueio atrioventricular de alto grau, taquicardia ventricular, taquicardias supraventriculares, canalopatias (QT longo, Brugada, TV polimórfica catecolaminérgica), disfunção de dispositivo.
Estruturais e vasculares: estenose aórtica, cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva, mixoma, infarto agudo, dissecção de aorta, tamponamento, embolia pulmonar, hipertensão pulmonar.
Menos frequente, mas responsável pela maior parte da mortalidade. Ocorre em esforço ou decúbito, sem pródromo, com palpitações, em paciente cardiopata ou com ECG alterado.
No idoso, os mecanismos frequentemente se somam: hipotensão ortostática por fármacos, hipersensibilidade do seio carotídeo e doença de condução podem coexistir no mesmo paciente.

Reflexa x cardíaca — o que separa

Sugere síncope reflexa

  • História longa de episódios recorrentes, iniciados na juventude.
  • Gatilho identificável: dor, punção venosa, emoção forte, ambiente quente e lotado, ortostase prolongada.
  • Pródromo autonômico prolongado: calor, náusea, sudorese, visão em túnel, palidez.
  • Ocorre após o esforço, e não durante.
  • Situacional: durante ou logo após micção, defecação, tosse ou deglutição.
  • Ausência de cardiopatia estrutural e ECG normal.

Sugere síncope cardíaca

  • Ocorre durante o esforço ou em decúbito.
  • Palpitações rápidas imediatamente antes da perda de consciência.
  • Ausência de pródromo — queda súbita, com trauma facial ou dentário.
  • História familiar de morte súbita inexplicada antes dos 40 anos.
  • Cardiopatia estrutural conhecida, insuficiência cardíaca ou infarto prévio.
  • ECG anormal ou dor torácica, dispneia e cefaleia associadas.
Síncope durante o esforço é cardíaca até prova em contrário (estenose aórtica, cardiomiopatia hipertrófica, arritmia catecolaminérgica, anomalia coronariana). Síncope logo após o esforço costuma ser reflexa.

Hipotensão ortostática — definições

Forma Critério Como detectar
ClássicaQueda ≥ 20 mmHg na sistólica ou ≥ 10 mmHg na diastólica (ou sistólica < 90 mmHg) em até 3 minutos de ortostaseMedida ativa à beira do leito, com o paciente deitado por 5 minutos e depois em pé
InicialQueda transitória > 40 mmHg na sistólica nos primeiros 15 segundos, com recuperação rápidaExige medida contínua da pressão — sugerida pela história de tontura imediata ao levantar
TardiaQueda progressiva após 3 minutos em péOrtostase prolongada ou teste de inclinação
Síndrome de taquicardia posturalAumento sustentado > 30 bpm (> 40 bpm em adolescentes) em ortostase, sem hipotensãoSintomas ortostáticos sem síncope franca; avaliação especializada
Como fazer o teste ortostático (não pule esta etapa)

Mantenha o paciente em decúbito por 5 minutos e afira a pressão e a frequência. Coloque-o em pé e repita a medida em 1 e 3 minutos, registrando os sintomas. É um teste de custo zero, frequentemente esquecido — e continua indicado mesmo após reposição volêmica, porque a hipotensão ortostática pode persistir.

Primeiro: o paciente está estável agora?

A avaliação diagnóstica só começa depois de garantir que não existe uma emergência em curso. Alguns pacientes chegam ainda sintomáticos ou com a causa ativa.

  1. Sinais vitais completos, monitorização cardíaca e oximetria; glicemia capilar imediata.
  2. ECG de 12 derivações em até 10 minutos — em todo paciente com síncope, sem exceção.
  3. Acesso venoso e coleta dirigida se houver instabilidade, sangramento ou suspeita de causa cardíaca.
  4. Trate o que estiver ativo: arritmia instável, hipoglicemia, hipovolemia, sangramento, intoxicação.
  5. Avalie o trauma decorrente da queda — cabeça, face, coluna cervical, quadril e extremidades.
  6. Faça o teste ortostático, salvo se houver instabilidade ou contraindicação.
  7. Só então conduza a anamnese estruturada e o exame físico dirigido.
Síncope com hipotensão persistente, dor torácica, dispneia, cefaleia súbita, déficit neurológico ou abdome doloroso não é "desmaio": procure ativamente sangramento, embolia pulmonar, dissecção de aorta, síndrome coronariana e hemorragia subaracnóidea.

Anamnese estruturada

É o exame de maior rendimento diagnóstico. Reconstrua o episódio em quatro tempos e, sempre que possível, ouça quem presenciou.

Antes

Posição (deitado, sentado, em pé), atividade (repouso, esforço, micção, tosse, após refeição), gatilho (dor, emoção, calor, aglomeração, movimento cervical), tempo em ortostase.

Início

Existiu pródromo? Qual e por quanto tempo? Náusea, calor, sudorese, visão em túnel e palidez sugerem reflexa; palpitações rápidas sugerem arritmia; ausência total de aviso é bandeira vermelha.

Durante (testemunha)

Duração, coloração da pele, forma da queda, presença e duração de abalos, mordedura de língua (e se lateral), desvio ocular, incontinência, respiração.

Depois

Tempo até recuperar a orientação, confusão, cefaleia, dor torácica, náusea persistente, trauma, memória preservada do evento.

Medicações

Anti-hipertensivos, diuréticos, alfabloqueadores, nitratos, antidepressivos, antipsicóticos, antiarrítmicos e qualquer droga que prolongue o intervalo QT; mudanças recentes de dose.

Antecedentes

Cardiopatia estrutural, infarto, insuficiência cardíaca, arritmia, dispositivo implantado; episódios prévios e desde quando; história familiar de morte súbita antes dos 40 anos.

Exame físico dirigido

  • Pressão arterial deitado e em pé (1 e 3 minutos), e nos dois braços quando houver dor torácica ou dorsal.
  • Ausculta cardíaca — sopro sistólico rude com irradiação para carótidas (estenose aórtica), sopro que aumenta com Valsalva (cardiomiopatia hipertrófica), sopros novos.
  • Ritmo e frequência — bradicardia, irregularidade, pausas.
  • Sinais de insuficiência cardíaca — estase jugular, crepitações, terceira bulha, edema.
  • Exame neurológico — déficit focal, sinais cerebelares, nível de consciência; anormalidades apontam para outra causa que não a síncope.
  • Pesquisa de sangramento — palidez, toque retal com melena, abdome doloroso, massa pulsátil.
  • Avaliação do trauma — face, crânio, coluna e quadril, sobretudo no idoso e no anticoagulado.

Exames: o que pedir e o que não pedir

O maior desperdício na síncope é o "pacote" solicitado por reflexo. A investigação deve nascer da hipótese clínica.

Exame Indicação Comentário
ECG de 12 derivaçõesTodosPilar da estratificação de risco. Diagnóstico direto em 2–11%, mas alterado em até metade dos casos.
Glicemia capilarTodosBarato, imediato e muda a conduta.
HemogramaSuspeita de sangramento ou anemiaHematócrito abaixo de 30% é preditor de desfecho adverso em regras clássicas de risco.
TroponinaSuspeita de causa cardíaca ou isquêmicaCompõe o Canadian Syncope Risk Score. Não é rastreio universal.
Beta-hCGMulher em idade fértilGravidez ectópica rota se apresenta como síncope.
EcocardiogramaSuspeita de doença estrutural, ECG ou exame alterados, síncope durante esforçoNão deve ser solicitado de rotina em paciente jovem com exame e ECG normais.
D-dímero e angiotomografiaGuiados pela probabilidade clínica (escore de Wells)Pesquisa rotineira de embolia pulmonar em toda síncope não é recomendada; investigue quando não há diagnóstico após a avaliação inicial ou há sinais sugestivos.
TC de crânio, RM, EEG, doppler de carótidasSomente com déficit neurológico, trauma craniano significativo, cefaleia súbita ou suspeita específicaRendimento diagnóstico muito baixo na síncope com exame neurológico normal — não peça de rotina.
Quando a etiologia é altamente provável pela avaliação clínica — a jovem que desmaiou em pé numa fila, com pródromo clássico e ECG normal — exames complementares habitualmente não são necessários.
Ferramentas diagnósticas

Cada card abre o passo a passo: como executar, quando indicar, o que é considerado positivo e quais as contraindicações.

Exames e manobras na investigação

Da beira do leito ao ambulatório. A escolha depende da hipótese e da frequência dos episódios — não da vontade de "investigar tudo".

Perda transitória da consciência: o guarda-chuva

Nem toda perda transitória da consciência é síncope, e nem toda queda envolve perda de consciência. Classificar corretamente evita tanto a investigação cardiológica desnecessária quanto a alta perigosa.

  • Síncope — hipoperfusão cerebral global.
  • Crise epiléptica — descarga neuronal anormal.
  • Traumática — concussão e traumatismo cranioencefálico.
  • Metabólica e tóxica — hipoglicemia, hipóxia, hipercapnia, intoxicação exógena, álcool.
  • Psicogênica — pseudossíncope e crise não epiléptica psicogênica.
  • Raras — isquemia vertebrobasilar, roubo da subclávia, hemorragia subaracnóidea.
  • Sem perda de consciência — queda mecânica, drop attack, cataplexia, acidente isquêmico transitório carotídeo.

Síncope x crise epiléptica

Achado Sugere síncope Sugere crise epiléptica
PródromoNáusea, calor, sudorese, visão em túnel, palidezAura (epigástrica, olfatória, déjà-vu) ou ausência de aviso
MovimentosAbalos breves, de poucos segundos, iniciados após a queda (mioclonias em 10–15% dos casos)Tônico-clônicos prolongados, sincrônicos, iniciados com a perda de consciência
Mordedura de línguaRara; quando ocorre, na pontaLateral — achado de alta especificidade
ColoraçãoPalidez intensaCianose e ruído respiratório
RecuperaçãoRápida e completa, orientação em segundosConfusão pós-ictal prolongada, sonolência, cefaleia, mialgia
IncontinênciaPode ocorrerPode ocorrer — não diferencia as duas condições
DuraçãoSegundosHabitualmente mais de um minuto
Os melhores discriminadores são mordedura lateral de língua e estado pós-ictal prolongado, ambos a favor de crise epiléptica. Abalos isolados e incontinência não fecham diagnóstico nenhum.

Os imitadores que matam

Diagnósticos que se apresentam como "desmaio" e cujo atraso é fatal. Procure ativamente quando houver dor, instabilidade ou exame anormal.

Hemorragia oculta

Digestiva alta, gravidez ectópica rota, ruptura de aneurisma de aorta abdominal, sangramento retroperitoneal em anticoagulado.

Embolia pulmonar

Considere quando a síncope permanece sem explicação após a avaliação inicial, sobretudo com dispneia, taquicardia ou sinais de sobrecarga direita.

Síndrome coronariana

Especialmente no idoso e no diabético, em que a apresentação pode ser atípica e sem dor.

Dissecção de aorta

Dor torácica ou dorsal intensa, assimetria de pulsos ou de pressão, déficit neurológico associado.

Hemorragia subaracnóidea

Cefaleia súbita e de forte intensidade precedendo ou acompanhando a perda de consciência.

Arritmia maligna

Taquicardia ventricular, bloqueio avançado ou canalopatia — o episódio pode ter sido o primeiro aviso de uma morte súbita abortada.

Pseudossíncope psicogênica

Suspeite diante de episódios muito frequentes e prolongados (minutos), olhos fechados com resistência à abertura passiva, ausência de trauma apesar das quedas repetidas, sinais vitais e coloração normais durante o evento e ausência de alterações no monitor. O diagnóstico é positivo — não de exclusão preguiçosa — e o teste de inclinação com monitorização pode confirmá-lo. Comunique o diagnóstico com respeito e encaminhe para acompanhamento adequado.

Bandeiras vermelhas

Achados que aumentam a probabilidade de causa cardíaca ou de evento grave em curto prazo. A presença de qualquer um deles desloca o paciente para investigação e monitorização.

Circunstância do evento

Síncope durante esforço, em decúbito ou sentado; ausência completa de pródromo; trauma facial ou dentário pela queda.

Sintomas associados

Palpitações rápidas precedendo o evento, dor torácica, dispneia, cefaleia súbita, dor abdominal ou dorsal.

Antecedentes

Cardiopatia estrutural, insuficiência cardíaca, infarto prévio, arritmia conhecida, dispositivo implantado, fração de ejeção reduzida.

História familiar

Morte súbita inexplicada antes dos 40 anos ou canalopatia conhecida na família.

ECG anormal

Qualquer achado da tabela abaixo — o ECG é o filtro mais rápido e barato de que dispomos.

Exame e sinais vitais

Sopro novo ou não investigado, sinais de insuficiência cardíaca, hipotensão persistente, anemia importante, sangramento.

Idade avançada isolada não define conduta, mas soma-se ao risco: no idoso a proporção de causas cardíacas é maior e a apresentação, mais atípica.

ECG de alto risco

Categoria Achados
BradiarritmiasBradicardia sinusal persistente < 40 bpm em vigília; pausas sinusais > 3 segundos; bloqueio atrioventricular de segundo grau Mobitz II ou total; fibrilação atrial com resposta ventricular muito lenta.
Distúrbios de conduçãoBloqueio bifascicular; QRS > 120 ms; bloqueio de ramo alternante; distúrbio de condução intraventricular associado a síncope sem pródromo.
TaquiarritmiasTaquicardia ventricular não sustentada; taquicardia supraventricular paroxística; pré-excitação ventricular (Wolff-Parkinson-White).
CanalopatiasQT corrigido longo (> 460–480 ms) ou curto (< 340 ms); padrão de Brugada tipo 1; ondas T invertidas em V1–V3 com onda épsilon ou potenciais tardios (cardiomiopatia arritmogênica do ventrículo direito).
Isquemia e estruturaAlterações compatíveis com isquemia aguda; ondas Q patológicas; sobrecarga ventricular esquerda; sinais de sobrecarga direita aguda.
DispositivosFalha de captura ou de sensibilidade em portador de marca-passo ou cardiodesfibrilador — interrogue o dispositivo.
Um ECG normal em paciente jovem, sem cardiopatia e com quadro clínico típico de síncope reflexa é um dos achados mais tranquilizadores da avaliação inicial.

Calculadora — Canadian Syncope Risk Score

Risco de evento grave em 30 dias 9 preditores Pontuação de −3 a +11

Aplique ao final da avaliação na emergência, quando nenhuma causa grave foi identificada. O escore estima o risco de desfechos graves em 30 dias — arritmia, infarto, embolia pulmonar, sangramento, doença estrutural e morte. Não se aplica a pacientes que já tiveram uma causa séria diagnosticada durante a visita.

Avaliação clínica

Exames

Diagnóstico na emergência

Pontuação total
0
Risco baixo
Risco estimado de evento grave em 30 dias: 1,9%
Percentuais da coorte de derivação. Estudos de validação encontraram taxas menores nas faixas de baixo risco. O escore apoia — mas não substitui — o julgamento clínico e a decisão compartilhada.

Calculadora — QT corrigido

Bazett e Fridericia Limiar de 480 ms no escore

Meça o intervalo QT na derivação em que ele é mais longo e bem definido (habitualmente DII ou V5), do início do QRS ao fim da onda T pelo método da tangente. A fórmula de Bazett é a mais usada, mas superestima o QTc em taquicardia e o subestima em bradicardia — nesses extremos, Fridericia é mais confiável.

QTc (Bazett)
470 ms
QTc (Fridericia)
452 ms
Leitura rápida
QTc acima de 500 ms eleva expressivamente o risco de torsades de pointes. Diante de QT longo, revise fármacos (antiarrítmicos, antipsicóticos, macrolídeos, antifúngicos azólicos, antieméticos) e corrija potássio e magnésio. Na presença de bloqueio de ramo, a interpretação do QTc perde acurácia.

Faixas de risco do escore

Pontuação Categoria Conduta sugerida
−3 a −2Muito baixoAlta com orientação e seguimento ambulatorial; investigação adicional raramente necessária.
−1 a 0BaixoAlta após observação breve, com plano definido do que será concluído fora do hospital.
1 a 3MédioMonitorização por algumas horas na emergência ou unidade de observação, com investigação dirigida e reavaliação.
4 a 5AltoMonitorização prolongada e internação para investigação cardiológica na maioria dos casos.
6 a 11Muito altoInternação com monitorização contínua e avaliação especializada precoce.

Internar, observar ou dar alta

A decisão nasce da combinação entre causa identificada, risco estimado e contexto social. Não existe internação "para investigar" sem hipótese: defina o que será investigado, onde e em quanto tempo.

Alta segura

  • Síncope reflexa ou ortostática típica, com causa clara.
  • ECG normal e ausência de cardiopatia.
  • Escore de baixo risco, exame físico normal e paciente assintomático.
  • Sem trauma relevante e com suporte domiciliar adequado.
  • Plano escrito: sinais de alerta, o que será feito ambulatorialmente e quando retornar.

Internação

  • Suspeita de síncope cardíaca ou arritmia documentada.
  • ECG de alto risco ou troponina elevada.
  • Cardiopatia estrutural relevante, incluindo estenose aórtica importante.
  • Sangramento, anemia importante ou instabilidade hemodinâmica.
  • Trauma significativo decorrente da queda.
  • Escore de alto ou muito alto risco, ou síncope sem explicação em paciente vulnerável.
Nos pacientes de médio e alto risco, cerca de metade dos eventos arrítmicos ocorre nas primeiras 6 horas após a chegada; nos de baixo risco, nas primeiras 2 horas. Isso torna a unidade de observação uma alternativa razoável à internação em casos selecionados.

Antes de dar alta

  • Explique o mecanismo em linguagem simples — entender o gatilho reduz recorrência e ansiedade.
  • Ensine as manobras de contrapressão e a deitar-se com as pernas elevadas ao primeiro pródromo.
  • Revise as medicações, suspendendo ou ajustando o que contribuiu para a hipotensão.
  • Oriente hidratação e sal, quando não houver hipertensão, insuficiência cardíaca ou doença renal que contraindiquem.
  • Defina o que fica pendente: monitorização ambulatorial, ecocardiograma, teste de inclinação ou avaliação especializada.
  • Liste os sinais de alerta para retorno imediato: recorrência sem pródromo, palpitações, dor torácica, dispneia ou síncope durante esforço.
  • Oriente sobre direção e atividades de risco até o esclarecimento diagnóstico, seguindo a regulamentação vigente e o parecer do especialista.
Manejo — como usar os cards

Cada card abre a conduta completa: apresentação, dose, técnica, indicação e cuidados. Confira sempre a apresentação disponível no seu serviço antes de administrar.

Emergências na sala — quando a causa ainda está ativa

Uma parcela dos pacientes chega com a causa em curso: bradiarritmia, taquiarritmia, hipoglicemia ou hipovolemia. Aqui o tratamento antecede a investigação.

Prevenção de recorrência — reflexa e ortostática

Na maioria dos pacientes, o tratamento é educação e medidas não farmacológicas. O fármaco entra apenas quando os episódios são recorrentes e incapacitantes, apesar das medidas iniciais.

Populações que mudam a conduta

Cenário Particularidade O que fazer diferente
Idoso Apresentação atípica, amnésia do evento, múltiplos mecanismos simultâneos e alta prevalência de causa cardíaca e de hipotensão ortostática por fármacos. Teste ortostático sempre, revisão criteriosa de medicações, avaliação de quedas e fragilidade, considerar massagem do seio carotídeo monitorizada.
Criança e adolescente Cerca de um terço apresenta ao menos um episódio até os 18 anos; a grande maioria é reflexa. Nos lactentes, os espasmos do choro são um diagnóstico à parte. Os critérios de gravidade são os mesmos do adulto. Valorize síncope no esforço, sem pródromo ou com história familiar de morte súbita — investigue canalopatias.
Atleta Síncope durante o exercício é sempre suspeita de causa estrutural ou arritmogênica; após o exercício, costuma ser reflexa. ECG e ecocardiograma obrigatórios na síncope de esforço; liberação para o esporte só após esclarecimento e avaliação especializada.
Gestante Síncope reflexa e hipotensão supina são comuns, mas gravidez ectópica rota e embolia pulmonar precisam ser afastadas. Beta-hCG e avaliação obstétrica; decúbito lateral esquerdo; investigação de imagem quando indicada, com proteção adequada.
Portador de dispositivo Falha de captura, de sensibilidade ou depleção de bateria podem causar síncope; o dispositivo também guarda o registro do evento. Interrogue o marca-passo ou o cardiodesfibrilador — é exame diagnóstico, não formalidade.
Cardiopatia elétrica conhecida Síndrome de Brugada, QT longo congênito, cardiomiopatia hipertrófica e cardiomiopatia arritmogênica: a síncope pode ser um evento arrítmico abortado. Síncope com características arritmogênicas nesses pacientes é indicação de avaliação eletrofisiológica e frequentemente de cardiodesfibrilador implantável.
Motorista e profissões de risco Síncope ao volante ou em altura tem consequências para terceiros. Oriente restrição temporária até o esclarecimento e registre a orientação em prontuário; a liberação segue a regulamentação vigente e o parecer do especialista.
Síncope recorrente sem diagnóstico Episódios repetidos, investigação inicial negativa e impacto importante na qualidade de vida. Monitorização de longa duração (incluindo dispositivo implantável), teste de inclinação e avaliação em ambulatório especializado em síncope.

Erros comuns na avaliação da síncope

  • Rotular como "desmaio comum" sem checar as circunstâncias do evento e sem ECG.
  • Não aferir a pressão em ortostase — o teste mais barato e um dos mais esquecidos.
  • Solicitar tomografia de crânio, eletroencefalograma e doppler de carótidas de rotina, com exame neurológico normal.
  • Confundir mioclonias breves da síncope com crise epiléptica e iniciar anticonvulsivante.
  • Não ouvir a testemunha do episódio, perdendo a informação de maior valor diagnóstico.
  • Ignorar palpitações precedentes, síncope no esforço ou história familiar de morte súbita.
  • Internar "para investigar" sem definir o que será investigado, ou dar alta sem plano ambulatorial.
  • Esquecer de revisar a prescrição do idoso, mantendo o fármaco que causou o episódio.
  • Deixar de examinar o trauma da queda, sobretudo em anticoagulados e idosos.

Resumo do fluxo

  1. Confirme que houve perda transitória da consciência e que ela é compatível com síncope.
  2. Estabilize e trate o que estiver ativo; faça ECG e glicemia em todos.
  3. Reconstrua o episódio com o paciente e com quem presenciou; meça a pressão em ortostase.
  4. Busque ativamente as bandeiras vermelhas e os imitadores graves.
  5. Se nenhuma causa séria foi identificada, estratifique o risco de eventos em 30 dias.
  6. Defina o destino: alta com plano, observação monitorizada ou internação.
  7. Trate o mecanismo: educação e medidas não farmacológicas na reflexa, revisão de fármacos na ortostática, terapia específica na cardíaca.
  8. Documente a orientação sobre recorrência, direção e retorno.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

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Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, diluições e escores devem ser sempre conferidos antes da aplicação.

Lembretes rápidos

ECG

Em todos os pacientes com síncope, em até 10 minutos.

Hipotensão ortostática

Queda ≥ 20 mmHg na sistólica ou ≥ 10 mmHg na diastólica em até 3 minutos.

Síncope no esforço

Cardíaca até prova em contrário. Após o esforço, costuma ser reflexa.

QTc

Acima de 480 ms pontua no escore; acima de 500 ms, risco alto de torsades.

Em provas / residência

A banca testa três coisas: reconhecer a síncope cardíaca (esforço, decúbito, palpitações, sem pródromo), lembrar que o ECG é para todos e não pedir tomografia de crânio de rotina.

Decore: hipotensão ortostática = queda ≥ 20/10 mmHg em 3 minutos; mordedura lateral de língua = crise epiléptica; QTc > 480 ms pontua no Canadian Syncope Risk Score.

Mais informações nas abas do artigo.

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