Dispneia
Experiência subjetiva de desconforto respiratório — e uma das queixas com maior proporção de causas potencialmente letais na porta de entrada. A avaliação inicial responde a duas perguntas em paralelo: este paciente vai parar de respirar? e o problema é do pulmão, do coração ou de fora do tórax?
Reconhecer a gravidade
- Musculatura acessória, tiragem e respiração paradoxal
- Frase entrecortada ou incapacidade de falar
- Rebaixamento, agitação ou sudorese
- Tórax silencioso e bradipneia são pré-parada
Primeiras medidas
- Sentar o paciente e monitorizar
- Oxigênio titulado, alvo de SpO₂ 94–98%
- Acesso, ECG e gasometria
- Radiografia e POCUS à beira do leito
Localizar a causa
- Vias aéreas, parênquima, pleura, vascular
- Cardíaca, neuromuscular ou metabólica
- Sibilos, crepitações ou ausculta limpa
- Até um terço tem mais de uma causa
Escolher o suporte
- Cateter, máscara ou reservatório conforme a demanda
- Cânula nasal de alto fluxo na hipoxemia pura
- VNI no edema agudo e na exacerbação de DPOC
- Intubar antes da exaustão, não depois
O que é dispneia
Dispneia é a experiência subjetiva de desconforto respiratório, composta por sensações qualitativamente distintas e de intensidade variável. É um sintoma — não um sinal — e por isso pode existir com oximetria normal, assim como pode faltar em um paciente gravemente hipoxêmico.
Ela nasce do descompasso entre a demanda ventilatória e a resposta obtida: quimiorreceptores centrais e periféricos, mecanorreceptores pulmonares e da parede torácica e o córtex sensorial produzem, juntos, a percepção de esforço, de aperto no peito ou de fome de ar.
Os quatro mecanismos
Praticamente toda dispneia decorre de um destes eixos, isolados ou combinados: aumento do trabalho respiratório (obstrução ou redução da complacência), estímulo quimiorreceptor (hipoxemia, hipercapnia, acidose), falha da bomba (fraqueza muscular ou depressão do centro respiratório) e redução da oferta de oxigênio (anemia, baixo débito, disfunção da hemoglobina).
Identificar o eixo predominante orienta o suporte: o paciente que precisa de oxigênio é diferente do que precisa de pressão positiva, que por sua vez é diferente do que precisa de volume corrente garantido.
Hipoxêmica x hipercápnica
- Tipo 1 — hipoxêmica: PaO₂ < 60 mmHg com PaCO₂ normal ou baixa. Mecanismo predominante é o distúrbio de troca (shunt, alteração da relação ventilação-perfusão). Pneumonia, edema pulmonar, embolia, síndrome do desconforto respiratório agudo.
- Tipo 2 — hipercápnica: PaCO₂ > 45–50 mmHg com acidose respiratória. Falha da bomba ventilatória. Exacerbação de DPOC, asma grave, doença neuromuscular, obesidade-hipoventilação, intoxicação por depressores.
- Mista: comum na prática — o paciente hipoxêmico que evolui para exaustão muscular passa a reter CO₂.
Uma PaCO₂ normal em um paciente com asma grave e taquipneico não é boa notícia: significa que ele já não consegue manter a hiperventilação compensatória. É sinal de exaustão e de risco de parada.
Por que ela importa na porta de entrada
A dispneia está entre as queixas mais frequentes na emergência e concentra uma proporção elevada de diagnósticos com risco de morte. Nos idosos, a sobreposição de causas é a regra, e o diagnóstico inicial da equipe é revisto com frequência ao longo da internação.
Uma das principais queixas de entrada em pronto-socorro.
Frequente no idoso: insuficiência cardíaca, DPOC e infecção coexistem.
O suporte ventilatório não espera o diagnóstico etiológico.
Aumenta de forma expressiva a acurácia diagnóstica precoce.
Tratar "broncoespasmo" que na verdade é edema agudo de pulmão.
As três perguntas da primeira hora
Avalie fala, padrão respiratório, uso de musculatura acessória, nível de consciência e tendência da oximetria. Se sim, o suporte vem antes de qualquer exame — e o material de via aérea vai para a beira do leito.
Gasometria e oximetria separam o distúrbio de troca da falha de bomba — e identificam a dispneia sem alteração gasométrica, típica de acidose metabólica, anemia, ansiedade e descondicionamento.
Via aérea, parênquima, pleura, circulação pulmonar, coração, parede torácica ou causa extrapulmonar. Exame físico, radiografia, eletrocardiograma e POCUS respondem à maioria dos casos em minutos.
Sinais de falência respiratória iminente
Reconhecíveis da porta da sala, antes de qualquer exame. A presença de qualquer um deles muda a prioridade da equipe.
Frases entrecortadas, palavras isoladas ou impossibilidade de falar traduzem esforço extremo — é um dos melhores marcadores à beira do leito.
Uso de esternocleidomastóideo e escalenos, tiragem intercostal e supraclavicular, batimento de asa do nariz.
Abdome que retrai na inspiração indica fadiga diafragmática — sinal de parada respiratória iminente.
Agitação, confusão ou sonolência sugerem hipoxemia ou hipercapnia graves. Sonolência em paciente dispneico é sinal tardio e perigoso.
Ausculta sem sibilos em paciente com broncoespasmo grave significa fluxo aéreo insuficiente para gerar ruído.
Queda da frequência respiratória em paciente antes taquipneico, sudorese fria e cianose central antecedem a parada.
Parâmetros objetivos de alarme
| Parâmetro | Alerta | Interpretação |
|---|---|---|
| Frequência respiratória | > 30 irpm ou < 8 irpm | É o sinal vital mais sensível e o mais frequentemente não registrado. Bradipneia após taquipneia indica exaustão. |
| SpO₂ | < 90% em ar ambiente | Pela curva de dissociação, abaixo de 90% pequenas quedas de saturação correspondem a grandes quedas de PaO₂. |
| PaO₂ | < 60 mmHg | Define insuficiência respiratória hipoxêmica. |
| PaCO₂ e pH | PaCO₂ > 45–50 mmHg com pH < 7,35 | Acidose respiratória aguda: falha de bomba. Avalie indicação de pressão positiva. |
| PaO₂/FiO₂ | < 300 (grave se < 200) | Quantifica o distúrbio de troca e integra os critérios de síndrome do desconforto respiratório agudo. |
| Índice ROX | < 4,88 após 2, 6 ou 12 h de cânula de alto fluxo | Sugere risco elevado de falha da terapia — reavalie a necessidade de intubação. |
| Nível de consciência | Qualquer alteração nova | Contraindica ventilação não invasiva na maioria dos cenários e antecipa a via aérea definitiva. |
Calculadora — oxigenação e índice ROX
Selecione o dispositivo para estimar a FiO₂ ou informe o valor exato quando estiver em ventilação mecânica ou cânula de alto fluxo. O índice ROX = (SpO₂/FiO₂) ÷ frequência respiratória foi validado para prever falha da cânula nasal de alto fluxo.
Os primeiros dez minutos
- Leve para a sala de emergência, monitorize (oximetria, cardioscopia, pressão) e sente o paciente — a posição sentada melhora a mecânica ventilatória.
- Ofereça oxigênio titulado ao alvo: SpO₂ 94–98% na maioria; 88–92% em risco de retenção de CO₂ (DPOC, obesidade-hipoventilação, doença neuromuscular).
- Avalie a fala, o padrão respiratório e o nível de consciência — a impressão dos primeiros 30 segundos define a urgência.
- Acesso venoso periférico e coleta: gasometria (arterial se houver suspeita de hipercapnia), hemograma, função renal, eletrólitos, lactato, troponina e peptídeo natriurético quando indicados.
- ECG de 12 derivações em até 10 minutos e glicemia capilar.
- Trate imediatamente o que é reversível: broncoespasmo, edema agudo de pulmão, pneumotórax hipertensivo, anafilaxia, corpo estranho, intoxicação por opioide.
- POCUS pulmonar e cardíaco à beira do leito, seguido de radiografia de tórax.
- Reavalie após cada intervenção: frequência respiratória, esforço, fala, oximetria e nível de consciência.
- Se não houver melhora, escale o suporte e reveja o diagnóstico — a dispneia refratária costuma ser diagnóstico incompleto.
Anamnese dirigida
- Tempo de instalação — súbita em segundos (pneumotórax, embolia, corpo estranho, arritmia) ou progressiva em horas e dias (pneumonia, insuficiência cardíaca, derrame, anemia).
- Fatores de melhora e piora — ortopneia e dispneia paroxística noturna sugerem congestão; platipneia sugere shunt; dispneia ao esforço progressiva sugere causa crônica agudizada.
- Sintomas associados — dor torácica, febre, tosse produtiva, hemoptise, edema de membros, palpitações, sibilância, urticária.
- Fatores de risco para embolia — imobilização, cirurgia recente, neoplasia, trombose prévia, gestação e puerpério, contraceptivo, viagem prolongada.
- Doença de base — asma, DPOC, insuficiência cardíaca, doença renal crônica, doença pulmonar intersticial, imunossupressão, obesidade.
- Medicações e adesão — uso correto do inalatório, diurético suspenso, betabloqueador iniciado, ganho de peso e transgressão de sal.
- Exposições — tabagismo, drogas inalatórias, ocupacional, contato com doentes, alérgenos, fumaça e monóxido de carbono.
Exame físico direcionado
Posição adotada, fala, cianose, uso de musculatura acessória, tiragem, assimetria da expansão torácica, respiração paradoxal, edema de membros, turgência jugular.
Sibilos (obstrução), crepitações finas bibasais (congestão), crepitações localizadas com sopro tubário (consolidação), murmúrio abolido (derrame ou pneumotórax), estridor (via aérea superior).
Macicez com frêmito reduzido no derrame; hipertimpanismo com abolição do murmúrio no pneumotórax; enfisema subcutâneo; desvio de traqueia.
Terceira bulha, sopro novo, hiperfonese de segunda bulha em foco pulmonar (hipertensão pulmonar), bulhas abafadas (tamponamento), arritmia.
Tempo de enchimento capilar, temperatura das extremidades, edema assimétrico de panturrilha, sinais de trombose venosa.
Angioedema, urticária, sialorreia, trismo, abaulamento de orofaringe — pistas de obstrução alta e anafilaxia.
Nunca force o decúbito de um paciente dispneico que escolheu ficar sentado. A posição adotada é uma compensação fisiológica; retirá-la para "examinar melhor" ou para transportar pode precipitar a descompensação.
Exames de primeira linha
| Exame | O que muda na conduta |
|---|---|
| Gasometria | Separa hipoxemia de hipercapnia, mede o pH e revela acidose metabólica como causa de taquipneia. A venosa serve para triagem de CO₂ e pH; a arterial é necessária para avaliar a oxigenação. |
| ECG de 12 derivações | Isquemia, arritmia, sinais de sobrecarga direita (S1Q3T3, bloqueio de ramo direito novo, T invertida em V1–V4), baixa voltagem. |
| Radiografia de tórax | Consolidação, congestão, derrame, pneumotórax, massa, cardiomegalia. Pode ser normal na embolia pulmonar e nas fases iniciais da pneumonia. |
| POCUS pulmonar e cardíaco | Mais rápido e mais sensível que a radiografia para congestão, derrame e pneumotórax — ver aba específica. |
| Peptídeo natriurético (BNP / NT-proBNP) | Útil quando a origem cardíaca é incerta: valores baixos têm alto valor preditivo negativo. Sobe também na embolia pulmonar, na sepse e na doença renal, e é menor no obeso. |
| Troponina | Síndrome coronariana como causa ou como consequência; elevação isolada é inespecífica no paciente crítico. |
| D-dímero | Solicitar apenas após estimar a probabilidade clínica (Wells ou Genebra). Use limiar ajustado à idade em maiores de 50 anos. |
| Hemograma | Anemia grave como causa direta de dispneia; leucocitose ou leucopenia na infecção. |
| Angiotomografia de tórax | Confirmação de embolia pulmonar em paciente com probabilidade intermediária ou alta, ou D-dímero positivo. |
Causas por compartimento
| Compartimento | Causas | Pistas de beira-leito |
|---|---|---|
| Via aérea superior | Corpo estranho, angioedema, anafilaxia, epiglotite, abscesso, tumor, estenose de traqueia, laringoespasmo. | Estridor, disfonia, sialorreia, incapacidade de deglutir, início súbito durante refeição. |
| Via aérea inferior | Asma, exacerbação de DPOC, bronquiolite, bronquiectasia infectada. | Sibilos difusos, expiração prolongada, tórax hiperinsuflado, história de crises prévias. |
| Parênquima | Pneumonia, síndrome do desconforto respiratório agudo, doença intersticial, contusão pulmonar, hemorragia alveolar. | Febre, tosse produtiva, crepitações localizadas, sopro tubário, hipoxemia desproporcional ao exame. |
| Pleura e parede | Pneumotórax (inclusive hipertensivo), derrame pleural, empiema, tórax instável, fratura de arcos costais, cifoescoliose. | Dor pleurítica, assimetria de ausculta e de expansão, hipertimpanismo ou macicez, enfisema subcutâneo. |
| Vascular pulmonar | Embolia pulmonar, hipertensão pulmonar, embolia gordurosa ou amniótica. | Início súbito, ausculta frequentemente limpa, taquicardia, fatores de risco para trombose, sinais de sobrecarga direita. |
| Cardíaca | Insuficiência cardíaca descompensada, edema agudo de pulmão, síndrome coronariana, arritmia, valvopatia aguda, tamponamento, miocardite. | Ortopneia, dispneia paroxística noturna, turgência jugular, terceira bulha, crepitações bibasais, edema. |
| Extrapulmonar | Acidose metabólica (cetoacidose, uremia, sepse, intoxicação), anemia grave, tireotoxicose, ascite volumosa, obesidade, gestação avançada. | Taquipneia sem hipoxemia, respiração de Kussmaul, palidez, hálito cetônico, distensão abdominal. |
| Neuromuscular e central | Síndrome de Guillain-Barré, miastenia gravis, esclerose lateral amiotrófica, lesão medular alta, botulismo, intoxicação por opioide ou benzodiazepínico. | Fraqueza progressiva, tosse ineficaz, voz fraca, hipercapnia com pulmão radiologicamente normal, pupilas puntiformes na intoxicação. |
| Funcional | Síndrome de hiperventilação, disfunção de cordas vocais, transtorno de ansiedade. | Diagnóstico de exclusão. Parestesias periorais e de extremidades, alcalose respiratória, exame e exames normais. |
Diagnósticos que não podem esperar
Diagnóstico clínico: dispneia, hipotensão, murmúrio abolido, hipertimpanismo, turgência jugular. Descompressão imediata com agulha e depois drenagem.
Corpo estranho ou angioedema com estridor. Manobras de desobstrução, adrenalina intramuscular na anafilaxia e via aérea cirúrgica se necessário.
Ventilação não invasiva precoce, nitrato e diurético. O suporte pressórico é o que reverte o quadro mais rapidamente.
Hipotensão sustentada com sobrecarga direita indica trombólise, salvo contraindicação absoluta.
Tórax silencioso, sonolência, PaCO₂ normal ou elevada. Broncodilatador contínuo, corticoide, magnésio e preparo para via aérea.
Dispneia com hipotensão, turgência jugular e pulmões limpos. Confirme com POCUS e trate com pericardiocentese.
Calculadora — escore de Wells para embolia pulmonar
Estima a probabilidade clínica de embolia pulmonar e define se o D-dímero é o próximo passo ou se o paciente segue direto para imagem. Aplique antes de pedir o D-dímero — solicitar o exame sem estimar a probabilidade gera investigação desnecessária.
POCUS pulmonar — o protocolo BLUE
O Bedside Lung Ultrasound in Emergency classifica a dispneia aguda em poucos minutos a partir de padrões simples, com acurácia superior à da radiografia para congestão, derrame e pneumotórax.
| Padrão | Achado | Interpretação |
|---|---|---|
| Linhas A | Artefatos horizontais, com deslizamento pleural presente | Pulmão aerado. Se houver dispneia e hipoxemia com esse padrão, procure embolia pulmonar, asma ou DPOC — pesquise trombose nas veias dos membros inferiores. |
| Linhas B difusas e bilaterais | Artefatos verticais, três ou mais por campo, em vários espaços | Síndrome intersticial. Bilateral e simétrica sugere edema pulmonar cardiogênico. |
| Linhas B focais e irregulares | Distribuição heterogênea, pleura espessada e irregular | Pneumonia, contusão, síndrome do desconforto respiratório agudo, doença intersticial. |
| Consolidação | Padrão tecidual, broncogramas aéreos dinâmicos | Pneumonia ou atelectasia. O broncograma dinâmico favorece pneumonia. |
| Derrame pleural | Área anecoica com sinal da coluna e do quadrilátero | Quantificação e guia para toracocentese à beira do leito. |
| Ausência de deslizamento pleural | Código de barras no modo M, ponto pulmonar | Pneumotórax — o ponto pulmonar é praticamente diagnóstico. |
POCUS cardíaco e vascular
Ventrículo esquerdo hipocontrátil e dilatado favorece origem cardíaca; contratilidade preservada não exclui insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada.
Dilatação (relação VD/VE > 1), septo retificado e sinal de McConnell sugerem sobrecarga aguda — apoiam embolia pulmonar no paciente instável.
Dilatada e pouco colapsável sugere pressão de enchimento elevada; fina e colapsável afasta congestão como causa principal.
Derrame com colapso de câmaras direitas confirma tamponamento como causa da dispneia e da hipotensão.
Compressão das veias femoral e poplítea: veia não compressível apoia o diagnóstico de embolia no paciente que não pode ir à tomografia.
Excursão e espessamento reduzidos indicam disfunção diafragmática e ajudam a prever falha de desmame e de ventilação não invasiva.
Cardíaco ou pulmonar? O nó da avaliação inicial
| Dado | Favorece origem cardíaca | Favorece origem pulmonar |
|---|---|---|
| História | Ortopneia, dispneia paroxística noturna, ganho de peso, edema, infarto prévio | Tosse produtiva, febre, sibilância recorrente, tabagismo, crises prévias |
| Ausculta | Crepitações finas bibasais, terceira bulha, sopro | Sibilos difusos, expiração prolongada, crepitações localizadas com sopro tubário |
| Jugulares e edema | Turgência jugular e edema simétrico de membros | Habitualmente ausentes, salvo em cor pulmonale |
| Radiografia | Cardiomegalia, congestão hilar, linhas B de Kerley, derrame bilateral | Consolidação, hiperinsuflação, infiltrado localizado ou radiografia normal |
| Peptídeo natriurético | Elevado (valores baixos têm alto valor preditivo negativo) | Habitualmente normal ou pouco elevado |
| POCUS | Linhas B bilaterais e simétricas, fração de ejeção reduzida, veia cava dilatada | Linhas A, linhas B focais, consolidação, deslizamento ausente |
Alvos de saturação
Oxigênio é medicamento: tem indicação, dose e efeito adverso. Hiperóxia sustentada associa-se a desfechos piores em várias populações.
A escada de oxigenação
| Dispositivo | Fluxo e FiO₂ | Quando usar e limitações |
|---|---|---|
| Cateter nasal | 1–6 L/min • FiO₂ ~24–44% | Hipoxemia leve. Confortável e permite falar e comer; FiO₂ imprevisível e dependente do padrão respiratório. |
| Máscara simples | 5–10 L/min • FiO₂ ~40–60% | Hipoxemia moderada. Fluxo mínimo de 5 L/min para evitar reinalação de CO₂. |
| Máscara de Venturi | FiO₂ fixa de 24 a 50% | Ideal no risco de retenção de CO₂, por entregar FiO₂ previsível e ajustável. |
| Máscara com reservatório | 10–15 L/min • FiO₂ ~60–90% | Hipoxemia grave. Mantenha o reservatório sempre inflado; é medida de resgate, não de manutenção prolongada. |
| Cânula nasal de alto fluxo | Até 60 L/min • FiO₂ 21–100% | Insuficiência respiratória hipoxêmica. Oferece FiO₂ estável, lava o espaço morto e gera PEEP discreta. Monitorize com o índice ROX. |
| Ventilação não invasiva | CPAP ou dois níveis de pressão | Edema agudo de pulmão e exacerbação de DPOC com acidose respiratória. Reduz intubação e mortalidade nessas indicações. |
| Ventilação invasiva | Via aérea definitiva | Falha ou contraindicação às medidas anteriores, rebaixamento, exaustão, instabilidade hemodinâmica ou parada iminente. |
Ventilação não invasiva — indicações e limites
Indicações com melhor evidência
- Edema agudo de pulmão cardiogênico — CPAP ou dois níveis, com melhora rápida da mecânica e da pré-carga.
- Exacerbação de DPOC com pH < 7,35 e PaCO₂ elevada — dois níveis de pressão.
- Imunossuprimido com insuficiência respiratória hipoxêmica.
- Suporte pós-extubação em pacientes de alto risco.
Contraindicações
- Parada respiratória franca ou iminente.
- Rebaixamento do nível de consciência e incapacidade de proteger a via aérea.
- Instabilidade hemodinâmica ou arritmia grave.
- Excesso de secreções, vômitos ou alto risco de aspiração.
- Trauma ou cirurgia facial recente e obstrução fixa de via aérea.
- Não adaptação à interface ou agitação intensa.
Comece com pressões baixas e ajuste conforme o conforto e o volume corrente. Reavalie entre 30 e 120 minutos com exame clínico e gasometria: melhora do pH, da PaCO₂, da frequência respiratória e do esforço indica sucesso. Sem melhora, não insista — a ventilação não invasiva prolongada em quem não responde apenas atrasa a intubação e piora o desfecho.
Intubação — quando e como
Parada respiratória iminente, rebaixamento com perda dos reflexos protetores, hipoxemia refratária ao suporte máximo, acidose respiratória progressiva, exaustão muscular, instabilidade hemodinâmica associada.
Máscara com reservatório ou cânula de alto fluxo por pelo menos 3 minutos; oxigenação apneica durante a laringoscopia. Considere ventilação não invasiva para pré-oxigenar o hipoxêmico grave.
Corrija hipotensão e volemia antes da indução; tenha vasopressor pronto. Etomidato ou quetamina são as opções habituais no instável.
Volume corrente protetor (6 mL/kg de peso predito), pressão de platô abaixo de 30 cmH₂O e PEEP conforme a indicação. No broncoespasmo grave, priorize tempo expiratório longo e vigie a auto-PEEP.
Tratar antes de confirmar
Em várias síndromes, o tratamento inicial é seguro e não depende de confirmação diagnóstica: broncodilatador na sibilância, pressão positiva na congestão, descompressão no pneumotórax hipertensivo, adrenalina intramuscular na anafilaxia. O erro mais caro na dispneia grave é esperar o exame.
Cada card abre a conduta completa: apresentação, dose, diluição, alvo e cuidados. Confira sempre a apresentação disponível no seu serviço antes de administrar.
Broncoespasmo — asma e DPOC
Sibilância difusa com expiração prolongada. O broncodilatador é a primeira medida e não depende de radiografia nem de gasometria.
Congestão e origem cardíaca
Ortopneia, crepitações bibasais e linhas B ao POCUS. A pressão positiva precoce é a intervenção que mais rapidamente reverte o quadro.
Emergências de resolução imediata
Situações em que uma única intervenção, feita em minutos, muda o desfecho — e em que a imagem confirmatória pode vir depois.
Cenários especiais
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Gestante | A dispneia fisiológica é comum, mas embolia pulmonar, embolia amniótica, cardiomiopatia periparto e edema agudo por pré-eclâmpsia são causas graves. | Decúbito lateral esquerdo, alvo de saturação mais alto, não postergar imagem quando indicada (com proteção) e avaliação obstétrica imediata. |
| Idoso | Apresentação atípica, múltiplas causas simultâneas e menor reserva ventilatória. | Considere insuficiência cardíaca, infecção e DPOC ao mesmo tempo; use POCUS precocemente e reavalie o diagnóstico com frequência. |
| Obeso | Síndrome obesidade-hipoventilação, maior risco de hipercapnia e dessaturação rápida na apneia. | Posição semi-sentada ou de rampa, pré-oxigenação otimizada, limiar baixo para gasometria arterial e ventilação não invasiva. |
| Imunossuprimido | Espectro ampliado de infecção, com hipoxemia desproporcional ao exame e à radiografia. | Tomografia precoce, pesquisa de agentes oportunistas, antibiótico de amplo espectro e discussão com a especialidade. |
| Doença neuromuscular | Hipercapnia com pulmão radiologicamente normal; a oximetria cai tardiamente. | Monitorize capacidade vital e força inspiratória, antecipe o suporte ventilatório e evite confiar apenas na saturação. |
| Intoxicação por monóxido de carbono | Oximetria falsamente normal; cefaleia, náusea e confusão em vítimas de incêndio ou exposição a aquecedor. | Gasometria com co-oximetria, oxigênio a 100% por máscara com reservatório e avaliação de câmara hiperbárica. |
| Cuidados paliativos | Dispneia refratária em doença avançada é sintoma tratável, independentemente do prognóstico. | Opioide em dose baixa e titulada, ventilador de face, posicionamento e manejo da ansiedade, com metas de cuidado definidas com paciente e família. |
Erros comuns
- Não registrar a frequência respiratória — o sinal vital mais sensível e o mais esquecido.
- Tranquilizar-se com saturação normal em paciente com esforço respiratório evidente.
- Deitar o paciente dispneico que escolheu ficar sentado.
- Tratar toda sibilância como asma: no idoso, pode ser congestão pulmonar.
- Negar oxigênio ao retentor de CO₂ em hipoxemia grave, em vez de titular.
- Insistir em ventilação não invasiva por horas em quem não melhorou nos primeiros 30 a 120 minutos.
- Pedir D-dímero sem antes estimar a probabilidade clínica de embolia pulmonar.
- Rotular como ansiedade sem excluir causas orgânicas, especialmente em idosos e hipoxêmicos.
- Esquecer o pneumotórax hipertensivo, que é diagnóstico clínico e não precisa de radiografia.
- Não reavaliar após cada intervenção, perdendo a janela de escalada do suporte.
Resumo do fluxo
- Avalie em 30 segundos se há falência respiratória iminente — fala, esforço, consciência.
- Sente o paciente, monitorize e titule oxigênio ao alvo adequado.
- Trate imediatamente o reversível: broncodilatador, pressão positiva, descompressão, adrenalina.
- Colha gasometria, faça ECG e defina o compartimento com exame, POCUS e radiografia.
- Reavalie após cada intervenção: sem melhora, escale o suporte e revise o diagnóstico.
- Estime a probabilidade de embolia pulmonar antes de solicitar D-dímero ou tomografia.
- Defina o destino: alta com plano, observação monitorizada, enfermaria ou terapia intensiva.
- Registre horários, doses, parâmetros ventilatórios e a resposta obtida.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
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Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. Doses, diluições e parâmetros ventilatórios devem ser sempre conferidos antes da aplicação.
Números rápidos
94–98% na maioria; 88–92% em risco de retenção de CO₂.
FR > 30 irpm, PaO₂ < 60 mmHg, PaCO₂ > 45 mmHg com pH < 7,35.
10–20 gotas (2,5–5 mg) em 3–4 mL de SF, a cada 20 min na primeira hora.
Reavalie entre 30 e 120 min: sem melhora, não insista.
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Em provas / residência
A banca cobra o alvo de saturação no retentor de CO₂ (88–92%), a VNI no edema agudo e na exacerbação de DPOC com acidose, e o pneumotórax hipertensivo como diagnóstico clínico.
Decore: PaCO₂ normal na asma grave taquipneica é sinal de exaustão; tórax silencioso é gravidade; Wells vem antes do D-dímero.
