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Documentos médicos

Atestado de Óbito

Guia prático para o preenchimento médico da parte obrigatória da Declaração de Óbito, com foco no Campo VI, na sequência causal da morte, nas orientações gerais e nos principais cuidados éticos, legais e médico-sanitários.

Declaração de óbito Responsabilidade médica Campo VI Valor legal e sanitário

Visão Geral

O atestado de óbito tem a finalidade de constatar o óbito, determinar a causa da morte e atender às necessidades de ordem legal, médica e sanitária.

Na prática, é importante diferenciar três termos: a Declaração de Óbito é o documento completo preenchido e fornecido pelo médico; o Atestado de Óbito corresponde à parte médica da declaração, especialmente a Parte VI, onde são registradas as causas da morte; e a Certidão de Óbito é o documento emitido pelo Cartório de Registro Civil.

A Declaração de Óbito é composta por três vias carbonadas e sequenciais, de cores diferentes, que devem ser preenchidas pelo médico. O documento é fornecido pelo Ministério da Saúde e distribuído pelas Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde, podendo também ser retirado na sede do Conselho Regional de Medicina.

Documento médico Finalidade legal Importância epidemiológica Controle sanitário

Declaração de Óbito

Documento completo fornecido e preenchido pelo médico, contendo dados de identificação, circunstâncias do óbito e a parte médica referente à causa da morte.

Atestado de Óbito

Parte médica da Declaração de Óbito, correspondente ao registro da causa da morte, especialmente no Campo VI do documento.

Certidão de Óbito

Documento emitido pelo Cartório de Registro Civil após apresentação da Declaração de Óbito pelos familiares ou responsáveis.

Destino das três vias da Declaração de Óbito
Via Destino Finalidade
Primeira via Cartório de Registro Civil Fica arquivada no cartório para emissão da Certidão de Óbito.
Segunda via Secretaria de Saúde Utilizada para fins de controle demográfico, epidemiológico e sanitário.
Terceira via Serviço médico ou médico responsável Fica arquivada na unidade de saúde ou com o médico que emitiu o documento.
Resumo prático

As duas primeiras vias são entregues aos familiares ou responsáveis para que possam levá-las ao Cartório de Registro Civil. A última via permanece arquivada no serviço médico ou com o médico responsável pela emissão.

Como preencher a Declaração de Óbito

As informações da Declaração de Óbito são de responsabilidade do médico que a preenche. O documento deve ser preenchido com atenção, legibilidade e sem omissões, pois possui valor legal, estatístico, epidemiológico e médico-sanitário.

Embora a maior parte dos campos seja autoexplicativa, como identificação e endereço, o Campo VI exige maior atenção, pois corresponde ao atestado de óbito propriamente dito e descreve a sequência causal da morte.

Orientações gerais
  1. Conferir cuidadosamente os dados de identificação.
  2. Preencher o documento em letra de forma.
  3. Utilizar caneta esferográfica.
  4. Não deixar espaços em branco.
  5. Quando não souber a informação ou ela não se aplicar, preencher como “ignorado”.
  6. Não utilizar traço “–” para campos desconhecidos ou não aplicáveis.
  7. Somente assinar o documento após o preenchimento completo.
  8. Destacar as três vias do bloco antes de preenchê-las.
  9. Evitar rasuras.
Responsabilidade médica
  1. O médico deve registrar as informações com base na avaliação clínica e nos dados disponíveis.
  2. A causa da morte deve ser descrita de forma clara, preferencialmente evitando termos vagos.
  3. O termo “causa indeterminada” deve ser evitado sempre que for possível investigar e valorizar doenças preexistentes.
  4. As áreas sombreadas destinadas ao CID não devem ser preenchidas pelo médico.
  5. O preenchimento correto possui grande importância para vigilância em saúde, estatísticas vitais e planejamento sanitário.
Evite espaços em branco

Quando uma informação for desconhecida ou não se aplicar ao caso, preencha como “ignorado”. Não utilize traços para substituir informações.

Evite rasuras

A Declaração de Óbito é um documento oficial. Rasuras, omissões e preenchimentos incompletos podem gerar problemas legais, administrativos e sanitários.

Quando o médico não deve atestar diretamente

Mortes violentas, não naturais ou suspeitas devem ser atestadas por médicos peritos legais. Nesses casos, o encaminhamento adequado deve seguir o fluxo local, geralmente envolvendo o Instituto Médico Legal.

Óbitos de pessoas sem assistência médica devem ser atestados por médicos do Serviço de Verificação de Óbitos, se disponível; por médicos do serviço público de saúde mais próximo; ou por qualquer médico, devendo constar no atestado que o óbito ocorreu sem assistência médica.

Causa da morte — Campo VI

O Campo VI configura o atestado de óbito propriamente dito. Ele trata do aspecto médico do documento, envolvendo o diagnóstico da causa da morte e as circunstâncias que levaram ao óbito da forma mais precisa possível.

A morte deve ser entendida como um processo. A partir da causa básica da morte, surgem causas consequentes, quadros intermediários e, por fim, a causa terminal. Essas informações devem ser organizadas na Parte I da declaração.

A causa básica da morte é a doença, lesão ou circunstância que deu início à cadeia de eventos que levou diretamente ao óbito. Ela deve ser registrada na última linha preenchida da Parte I.

Exemplo visual do preenchimento médico
37 Óbito de mulher em idade fértil
A morte ocorreu
1Na gravidez
2No parto
3No aborto
4Até 42 dias após o parto
5De 43 dias até 1 ano após o término da gestação
8Não ocorreu nestes períodos
9Ignorado
38 Assistência médica
Recebeu assistência médica?
1Sim
2Não
9Ignorado
39 Diagnóstico confirmado por
Necrópsia?
1Sim
2Não
9Ignorado
Anote somente um diagnóstico por linha
Tempo aproximado
CID
a
Doença ou estado mórbido que causou diretamente a morte Insuficiência respiratória aguda
horas
b
Devido ou como consequência de: Pneumonia
2 dias
c
Devido ou como consequência de: Infecção respiratória aguda
3 dias
d
Devido ou como consequência de: COVID-19
10 dias
II
Outras condições significativas que contribuíram para a morte Hipertensão arterial sistêmica
15 anos
II
Outras condições significativas que contribuíram para a morte Obesidade
15 anos
Observação: o exemplo acima é apenas educacional. As áreas à direita destinadas ao CID não devem ser preenchidas pelo médico, mas por técnicos da Vigilância em Saúde do município.
Como organizar a sequência causal
a
Causa direta ou terminal

É o evento final que levou diretamente ao óbito. Deve ser consequência das linhas abaixo.

b
Causa antecedente intermediária

Condição que produziu a causa registrada na linha “a”.

c
Outra causa antecedente

Condição anterior que deu origem à sequência registrada acima.

d
Causa básica da morte

Deve ser registrada na última linha preenchida da Parte I. Não precisa obrigatoriamente estar na linha “d”, mas deve ser a última causa da cadeia causal registrada.

II
Outras condições contribuintes

Doenças ou condições relevantes que contribuíram para o óbito, mas que não fizeram parte direta da sequência causal da Parte I.

Regra prática

A Parte I deve contar a história causal da morte de cima para baixo, indo da causa terminal até a causa básica.

Um diagnóstico por linha

Anote apenas um diagnóstico por linha e evite listar múltiplas causas desconectadas na Parte I.

Situações especiais e cuidados importantes

A Declaração de Óbito deve ser preenchida para todos os óbitos, inclusive os fetais, quando a gestação for superior a 20 semanas, ou o peso fetal for maior que 500 g, ou o tamanho fetal for maior que 25 cm.

O termo “causa indeterminada” deve ser evitado sempre que possível. O médico deve investigar, valorizar doenças preexistentes e buscar registrar a causa mais provável do óbito com base nos dados disponíveis.

Mortes violentas, suspeitas ou não naturais

Mortes violentas, não naturais ou suspeitas devem ser atestadas por médicos peritos legais. Nesses casos, a emissão da declaração deve seguir o fluxo legal adequado, geralmente com encaminhamento ao Instituto Médico Legal.

Óbito sem assistência médica

Quando o óbito ocorrer sem assistência médica, a declaração deverá ser emitida por médico do Serviço de Verificação de Óbitos, se disponível; por médico do serviço público de saúde mais próximo; ou por qualquer médico, devendo constar que o óbito ocorreu sem assistência médica.

Óbito fetal

A Declaração de Óbito deve ser preenchida nos óbitos fetais quando houver gestação superior a 20 semanas, peso fetal maior que 500 g ou tamanho fetal maior que 25 cm.

Cremação

Indivíduos que optaram pela cremação devem ter a assinatura de dois médicos diferentes em sua Declaração de Óbito.

Evite “causa indeterminada”

Sempre que possível, investigue a história clínica, valorize doenças preexistentes e descreva a sequência causal mais provável.

Seguros de vida

Seguros de vida costumam exigir Declaração de Óbito com causa determinada para pagamento do benefício.

Referências Bibliográficas

As referências abaixo servem como base ética, legal e prática para o preenchimento da Declaração de Óbito e do Atestado de Óbito.

Bibliografia
  1. GUSSO, G.; LOPES, J. M. C. Tratado de medicina de família e comunidade. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
  2. CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO. Atestado de óbito: aspectos médicos, estatísticos, éticos e jurídicos. 1. ed. Rio de Janeiro: CREMERJ, 2019.
  3. LAURENTI, R.; MELLO JORGE, M. H. P. O atestado de óbito. São Paulo: Cremesp, 2015.
  4. CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Atestado médico: prática e ética. 1. ed. São Paulo: CREMESP, 2013.
  5. DUNCAN, B. B.; SCHMIDT, M. I.; GIULIANI, E. R. J. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.
  6. MINISTÉRIO DA SAÚDE (BR). A declaração de óbito: documento necessário e importante. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2009.
  7. CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Código de ética médica. Resolução nº 1.931, de 17 de setembro de 2009. Brasília: CFM, 2009.
Observação ética

O preenchimento da Declaração de Óbito deve ser realizado com responsabilidade médica, respeito às normas legais e atenção à utilidade epidemiológica das informações registradas.

Finalidade educacional

Este conteúdo tem finalidade educacional e deve ser adaptado conforme as normas vigentes, os fluxos locais de saúde, as orientações do CFM/CRM e o contexto clínico de cada caso.

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