Agitação Psicomotora
Manejo escalonado: segurança e desescalada verbal primeiro, tranquilização rápida quando necessário e contenção física apenas como último recurso. O objetivo é acalmar sem sedar em excesso, mantendo o paciente capaz de participar do próprio cuidado e permitindo o diagnóstico da causa.
Segurança primeiro
- Ambiente com poucos estímulos e saída acessível
- Distância de cerca de 2 metros
- Retirar objetos que possam virar arma
- Equipe de apoio alerta e treinada
Desescalada verbal
- Primeira estratégia em todo paciente abordável
- Tom calmo, firme e respeitoso
- Restrição de espaço a local reservado
- Só medicar quando a abordagem verbal falha
Tranquilização rápida
- VO no colaborativo; IM na agitação grave
- Haloperidol + prometazina IM: 1ª escolha (1A)
- Evitar a via IV de rotina
- Menor dose efetiva; não combinar vias
Causa orgânica
- Sinais vitais alterados, febre, dispneia
- Consciência rebaixada ou desatenção
- Primeiro episódio após os 45 anos
- Foco neurológico, trauma ou convulsão
Definições
Atividade motora e verbal aumentada e desorganizada, acompanhada de tensão interna, que pode evoluir para agressividade contra si mesmo, contra terceiros ou contra o ambiente.
Acalmar o paciente sem sedação excessiva — idealmente sem sedar —, de modo que ele possa participar do próprio cuidado e que a causa da agitação possa ser investigada. Indicada quando as medidas não farmacológicas falham ou não são viáveis.
Sequência de manejo
A abordagem é escalonada: cada etapa só avança quando a anterior falha. Medicar não é o primeiro passo, e conter fisicamente é sempre o último.
- Garantir segurança e ambiente adequado.
- Desescalada verbal.
- Restrição de espaço (ambiente reservado e tranquilo).
- Tranquilização rápida (medicação).
- Contenção física apenas se as etapas anteriores falharem — sempre associada à medicação.
Princípios da tranquilização rápida
- Objetivo: acalmar sem sedar em excesso, com a menor dose efetiva.
- Preferir a via oral no paciente colaborativo (solução oral ou comprimido orodispersível).
- Usar a via IM na agitação grave ou violenta e na recusa da via oral.
- Evitar a via IV, pelo risco de depressão respiratória — reservá-la a locais com monitorização contínua.
- Não combinar vias diferentes ao mesmo tempo (por exemplo, VO e IM).
- Manter a mesma medicação até a dose máxima diária antes de trocar de fármaco.
- Monitorizar antes e depois da administração, com atenção ao prolongamento do QT.
Sinais de gravidade
Risco iminente de violência contra si, contra terceiros ou contra a equipe.
Não responde à abordagem verbal ou não tolera aguardar.
Flutuação do nível de consciência, desatenção e desorientação — pense em delirium.
Febre, taquicardia, hipotensão, dessaturação e sudorese.
O uso de substâncias muda diretamente a escolha do fármaco.
Sinais focais, trauma de cabeça, convulsão ou cefaleia intensa.
Segurança e ambiente
Antes de qualquer intervenção, proteja o paciente e a equipe. Um ambiente mal preparado transforma uma agitação manejável em uma emergência de segurança.
- Sala tranquila, com poucos estímulos — pouca luz, pouco ruído e poucas pessoas.
- Saída próxima e acessível, com o profissional posicionado de modo a não ficar encurralado.
- Manter distância segura, de cerca de 2 metros.
- Remover objetos que possam ser usados como arma.
- Equipe de segurança e apoio alerta, treinada e visível — mas sem postura de confronto.
- EPI conforme a avaliação de risco, incluindo precauções respiratórias em suspeita infecciosa.
Desescalada verbal
É a primeira estratégia em todo paciente abordável e, em boa parte dos casos, resolve o episódio sem medicação. Exige tempo, postura e treino.
Tom calmo, firme e respeitoso. Apresente-se, use o nome do paciente e evite confronto verbal ou corporal.
Ouça a queixa, valide o sofrimento e evite discutir conteúdos delirantes. Ofereça escolhas simples.
Conduza a um local mais reservado e tranquilo, longe de plateia e de outros pacientes.
Ofereça água, alimento, banheiro e conforto — necessidades não atendidas alimentam a agitação.
Contenção física — último recurso
- Usar faixas e contenções apropriadas, com equipe suficiente e treinada.
- Evitar contenção torácica quando houver sintomas respiratórios.
- Reavaliar periodicamente: bem-estar, perfusão dos membros, hidratação e necessidade de manter a contenção.
- Fazer profilaxia de trombose (heparina) quando a contenção e a imobilidade forem prolongadas.
- Vigiar hipertermia e rabdomiólise, sobretudo em pacientes que lutaram contra as faixas.
- Registrar em prontuário a indicação, o horário, as reavaliações e o momento da retirada.
Triagem rápida
- Entender o que está acontecendo, há quanto tempo, e quantificar a gravidade da agitação.
- Levantar a hipótese diagnóstica inicial e fazer a avaliação de risco (auto e heteroagressão, capacidade de autocuidado).
- Sempre que possível, realizar exame físico e medir sinais vitais antes da contenção ou da tranquilização.
- Completar com anamnese objetiva e subjetiva, exame neurológico e psíquico e diagnóstico diferencial.
- Conduzir a tranquilização rápida e definir o encaminhamento ou o período de observação.
Sinais de alerta para causa orgânica
A presença de qualquer um destes sinais sugere causa clínica ou neurológica (incluindo delirium) e deve disparar investigação dirigida. Toque nos itens presentes:
Diferenciar as causas — e o fármaco muda
| Causa | Pistas clínicas | Escolha farmacológica |
|---|---|---|
| Transtorno psiquiátrico | Psicose, mania, transtornos de humor ou de ansiedade, com história prévia conhecida. | Antipsicótico (haloperidol, risperidona, olanzapina), isolado ou combinado. BZD em monoterapia não é indicado na psicose. |
| Intoxicação por depressores (álcool, opioides, BZD) |
Rebaixamento de consciência, hálito etílico, miose (opioides), depressão respiratória. | Preferir haloperidol (melhor perfil respiratório). Evitar BZD. |
| Estimulantes (cocaína, anfetaminas) |
Midríase, taquicardia, hipertensão, hipertermia, agitação intensa. | Preferir benzodiazepínicos. |
| Abstinência de álcool ou BZD | Tremor, sudorese, taquicardia, alucinações, risco de convulsão e delirium tremens. | Preferir benzodiazepínicos — aqui eles são o tratamento, não apenas o sedativo. |
| Delirium / causa orgânica | Flutuação, desatenção, alucinações visuais, sinais vitais alterados, idoso. | Tratar a causa. Se necessário, antipsicótico em dose baixa; evitar BZD (exceto abstinência de álcool ou BZD). |
Como escolher a via
- Paciente colaborativo, que aceita medicação: via oral, preferindo solução oral ou comprimido orodispersível.
- Agitação grave ou violenta, ou recusa da via oral: via IM, de absorção e início mais rápidos.
- Manter a mesma medicação até a dose máxima diária antes de trocar de fármaco.
- Reservar as combinações para a agitação grave e monitorizar sedação e função respiratória.
Cada card abre a prescrição prática completa: apresentação, dose por aplicação (em mg e em mL/gotas), intervalo de repetição, dose máxima em 24 h, início de ação e cuidados. Confira sempre a apresentação disponível na sua instituição.
Via IM — agitação grave ou violenta
As combinações com haloperidol têm o melhor nível de evidência para agitação grave. A prometazina acelera o início de ação e reduz os sintomas extrapiramidais; o midazolam produz sedação mais pronunciada, ao custo de maior risco respiratório.
Via oral — paciente colaborativo
Sempre que o paciente aceita medicação, a via oral é preferível por ser menos invasiva e preservar a aliança terapêutica. A risperidona em solução oral tem o melhor nível de evidência; associada a um benzodiazepínico oral, alcança eficácia comparável ao haloperidol IM.
Benzodiazepínicos isolados — situações específicas
O uso isolado de BZD tem baixo nível de evidência para tranquilização rápida em geral, mas é a escolha preferencial na abstinência alcoólica e na intoxicação por estimulantes, além de opção em agitação leve a moderada não psicótica.
Catálogo de medicações
Catálogo organizado por grupo farmacológico. Toque em uma medicação para ver a prescrição prática, o nível de evidência, os efeitos adversos e os cuidados. Doses para adultos — ajustar por idade, comorbidades, função renal e hepática, gestação e interações.
Antipsicóticos de 1ª geração (FGA)
Base histórica da tranquilização rápida. Mais sintomas extrapiramidais e risco de prolongamento do QT; melhor perfil respiratório que os benzodiazepínicos.
Antipsicóticos de 2ª geração (SGA)
Menos sintomas extrapiramidais. Boas opções orais no paciente colaborativo e primeira escolha no delirium quando há necessidade de controle imediato.
Benzodiazepínicos
Preferidos na intoxicação por estimulantes e na abstinência de álcool ou BZD. Não usar em monoterapia na psicose e evitar na intoxicação por depressores do SNC, pelo risco de depressão respiratória.
Combinações recomendadas
As combinações ampliam a eficácia, mas também os efeitos adversos (sedação e depressão respiratória). Reserve-as para a agitação grave e nunca combine vias diferentes ao mesmo tempo.
Agitação por intoxicação
- Depressores do SNC (álcool, opioides, benzodiazepínicos): preferir haloperidol, pelo melhor perfil respiratório, e evitar BZD.
- Antipsicóticos de 2ª geração — olanzapina, risperidona e ziprasidona — são alternativas razoáveis ao haloperidol.
- Distinguir intoxicação alcoólica de abstinência alcoólica: na abstinência, os benzodiazepínicos são a escolha.
- Estimulantes (cocaína, anfetaminas): preferir benzodiazepínicos.
Agitação no delirium
- Investigar e tratar a causa subjacente — hipoglicemia, distúrbio eletrolítico, hipóxia, infecção, retenção urinária, dor. Isso tem prioridade sobre a sedação.
- Quando há necessidade de controle imediato, os antipsicóticos de 2ª geração são a primeira escolha.
- Haloperidol e risperidona em doses baixas são aceitáveis.
- Evitar benzodiazepínicos, que podem exacerbar o delirium — exceto na abstinência de álcool ou de BZD.
Idosos
- Presumir delirium até prova em contrário, sobretudo quando há alteração da atenção, da orientação e da consciência.
- Tentar primeiro todas as estratégias não farmacológicas.
- Usar antipsicóticos com cautela: começar com doses baixas e titular devagar.
- Monitorar risco de quedas, sedação excessiva, confusão, retenção urinária e interações medicamentosas.
Gestação
- Priorizar intervenções verbais e não farmacológicas sempre que possível.
- Se a medicação for necessária, usar a quantidade mínima efetiva.
- Primeira linha sugerida: haloperidol em monoterapia.
- Segunda linha: benzodiazepínico ou risperidona em monoterapia; com menor aceitação, a combinação de BZD com antipsicótico de 1ª geração.
Paciente clínico e contexto infeccioso
Individualize conforme as demais medicações em uso e as complicações da doença de base. Verifique interações e efeitos adversos antes de prescrever.
- Prolongamento do QT: antipsicóticos associados a fármacos como hidroxicloroquina, cloroquina e azitromicina aumentam o risco — considere ECG.
- Evitar fenotiazinas e ziprasidona nesse contexto. A quetiapina não tem evidência para tranquilização rápida.
- Benzodiazepínicos na menor dose possível; evitar o midazolam quando há risco respiratório aumentado.
- Risco de trombose com contenção e imobilidade: fazer profilaxia (heparina) e evitar contenção torácica se houver sintomas respiratórios.
- Lítio (alto risco arritmogênico) e carbamazepina (interação com antirretrovirais) exigem cuidado adicional.
Níveis de evidência
As diretrizes brasileiras graduam cada recomendação por nível de evidência (1A a 5) e grau de recomendação (A a D). Em resumo: 1A/A é forte (ensaios randomizados e meta-análises), 2/B é moderado e 4–5/C–D é baixo ou baseado em opinião de especialistas.
| Esquema | Via | Evidência |
|---|---|---|
| Haloperidol isolado ou combinado a prometazina/midazolam | IM | 1A · A |
| Risperidona (VO/solução oral) e asenapina sublingual | VO / SL | 1B · A |
| Olanzapina VO/ODT e risperidona + lorazepam | VO | 2A · B |
| Haloperidol VO e risperidona + clonazepam | VO | 2B · B |
| Droperidol, droperidol + midazolam, haloperidol + lorazepam, levomepromazina | IM | 2B–2C · B |
| Benzodiazepínicos isolados (clonazepam, diazepam, lorazepam) | VO | 4–5 · C–D |
Erros e condutas não recomendadas
- Combinar vias diferentes ao mesmo tempo (por exemplo, VO e IM).
- Usar benzodiazepínico em monoterapia para tranquilização rápida em quadro psicótico.
- Usar benzodiazepínico na intoxicação por depressores do SNC (álcool, opioides).
- Associar olanzapina IM a benzodiazepínico IM — risco de hipotensão, bradicardia e depressão respiratória.
- Usar a via IV de rotina, ou a clorpromazina por via parenteral.
- Administrar diazepam por via IM (absorção errática).
- Sedar o delirium sem investigar e tratar a causa orgânica.
- Trocar de fármaco antes de atingir a dose máxima do primeiro.
- Conter fisicamente sem medicar e sem reavaliar periodicamente.
Checklist de plantão
- Ambiente seguro e equipe protegida.
- Desescalada verbal tentada antes da medicação.
- Avaliação de risco realizada e causa orgânica pesquisada.
- Via e fármaco escolhidos conforme gravidade e causa.
- Menor dose efetiva, com a mesma medicação mantida até a dose máxima antes de trocar.
- Monitorização após a medicação: nível de sedação, respiração e risco cardíaco (QT).
- Contenção física, se usada, associada à medicação e reavaliada com frequência.
- Encaminhamento ou observação definidos e orientação compartilhada com a família.
- Registro em prontuário de todas as etapas, incluindo a justificativa da contenção.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico individualizado, os protocolos da sua instituição nem a consulta às bulas e diretrizes vigentes. As doses apresentadas são para adultos e devem ser ajustadas conforme idade, comorbidades, função renal e hepática, gestação, interações e risco cardíaco. Confira sempre a apresentação disponível antes de prescrever.
Referências bibliográficas
Conteúdo baseado nas diretrizes brasileiras da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) para o manejo da agitação psicomotora.
- Baldaçara L, Ismael F, Leite VS, et al. Diretrizes brasileiras para o manejo da agitação psicomotora: abordagem farmacológica 1 — tranquilização rápida. Debates em Psiquiatria. 2021. doi.org/10.25118/2236-918X-11-1-3
- Baldaçara L, Ismael F, Leite VS, et al. Diretrizes brasileiras para o manejo da agitação psicomotora: tranquilização rápida 2 — combinações e grupos especiais. Debates em Psiquiatria. 2021. doi.org/10.25118/2236-918X-11-1-4
- Baldaçara L, Silva AG, Gorender ME, et al. Manejo da agitação psicomotora em pacientes com COVID-19. Debates em Psiquiatria. 2021. doi.org/10.25118/2236-918X-11-1-5
- Baldaçara L, Diaz AP, Leite V, et al. Brazilian guidelines for the management of psychomotor agitation. Part 2. Pharmacological approach. Braz J Psychiatry. 2019;41(4):324-335. doi.org/10.1590/1516-4446-2018-0177
- Baldaçara L, Ismael F, Leite V, et al. Brazilian guidelines for the management of psychomotor agitation. Part 1. Non-pharmacological approach. Braz J Psychiatry. 2019;41(2):153-167.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Documentos e diretrizes. Disponível em: abp.org.br
Dose rápida (adulto)
5 mg (1 mL) + 25–50 mg (1–2 mL). Preferencial (1A).
2,5–5 mg = 0,5–1 mL. Repetir a cada 30 min; máx. 30 mg/dia.
Até 15 mg = até 3 mL. Vigiar respiração.
2–3 mg = 2–3 mL. Máx. 8 mg/dia.
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Agitação psicomotora → desescalada verbal primeiro; contenção física é o último recurso e nunca substitui a medicação.
Decore: haloperidol + prometazina IM é a combinação preferencial (1A); BZD isolado não trata psicose; na intoxicação por depressores use haloperidol; na abstinência alcoólica e nos estimulantes, use BZD.
