
🚶♂️ Marcha Escarvante
A marcha escarvante (ou marcha em passo de ganso) é um padrão anormal de deambulação caracterizado pela dificuldade de elevação do pé ao caminhar, levando o paciente a levantar exageradamente o joelho e, em seguida, deixar o pé cair com força sobre o solo. O termo “escarvante” faz referência ao gesto de “raspar o chão”, semelhante ao movimento de um cavalo escavando o solo com a pata.
Esse tipo de marcha é um sinal clínico clássico de pé caído (foot drop), geralmente causado por lesão do nervo fibular (peroneal) comum ou de vias motoras centrais que afetam os músculos dorsiflexores do pé.
Como ocorre?
Durante a marcha normal, o músculo tibial anterior e outros dorsiflexores (como extensor longo dos dedos e do hálux) mantêm o pé elevado durante a fase de balanço, evitando que ele arraste no chão. Quando esses músculos estão paralisados ou enfraquecidos, o paciente não consegue levantar o antepé e, para compensar, realiza uma elevação exagerada do quadril e joelho para não tropeçar.
Essa elevação forçada da perna seguida da queda súbita do pé (com som audível) ao tocar o chão é característica da marcha escarvante.
Importância clínica
A marcha escarvante é um sinal clínico objetivo que indica comprometimento neuromuscular específico e precisa ser investigada. Ela afeta diretamente a segurança e autonomia do paciente, aumentando o risco de quedas, entorses e traumas.
O diagnóstico precoce da causa permite instituir tratamento adequado, que pode incluir desde correção da causa primária, uso de órteses (tipo AFO), fisioterapia motora até abordagens cirúrgicas em casos selecionados.
A marcha escarvante costuma ser evidente à simples observação, mas é fundamental realizar:
- Exame neurológico completo: avaliando força, sensibilidade e reflexos
- Teste de dorsiflexão do pé contra resistência
- Inspeção do pé: pé caído, pé cavo, alterações tróficas
Exame da sensibilidade: dor, vibração, tato e temperatura na face anterolateral da perna e dorso do pé (território do fibular superficial e profundo)
Exames complementares úteis incluem:
- Eletroneuromiografia: para localizar e quantificar a lesão nervosa
- Ressonância magnética de joelho ou coluna lombar: se houver suspeita de compressão radicular
Exames laboratoriais: em casos de polineuropatia
Características clínica
Durante a observação da marcha escarvante, é possível notar:
- Elevação exagerada do joelho
- Queda abrupta do pé ao solo (foot slap)
- Arraste ou raspagem do dorso do pé
- Marcha unilateral ou bilateral
Dificuldade de caminhar em terrenos irregulares ou escuros
Quando bilateral, o paciente pode lembrar um andar típico de ganso, com ambas as pernas sendo levantadas em excesso, e a marcha se torna ainda mais instável.
Referências
- DeMyer W. Techniques of the Neurologic Examination. McGraw-Hill Education, 2004.
- Blumenfeld H. Neuroanatomy through Clinical Cases. Sinauer Associates, 2010.
- Preston DC, Shapiro BE. Electromyography and Neuromuscular Disorders. 3rd ed. Elsevier, 2012.
- Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo de Diagnóstico de Polineuropatias.
Snell RS. Neuroanatomia Clínica. 7ª ed. Guanabara Koogan, 2011.
