🚶‍♂️ Marcha Atáxica

A marcha atáxica é um tipo de distúrbio da marcha caracterizado por incoordenação motora durante a caminhada, resultando em passos irregulares, base alargada e instabilidade, como se o paciente estivesse “bêbado”. A palavra ataxia deriva do grego e significa literalmente “sem ordem”, refletindo a falta de coordenação muscular voluntária que compromete o equilíbrio e o controle postural.

Esse tipo de marcha é um sinal clínico, não uma doença em si, e pode indicar lesão cerebelar, alteração proprioceptiva ou, em alguns casos, comprometimento do trato vestibular.

Características clínicas

Durante a observação da marcha atáxica, o paciente apresenta:

  • Base alargada (afastamento dos pés)
  • Passos irregulares e inseguros
  • Desvio do trajeto ao caminhar
  • Oscilações laterais do tronco
  • Dificuldade para andar em linha reta
  • Pode haver queda súbita ao fechar os olhos (marcha sensitiva)

Em casos mais graves, o paciente pode precisar de apoio constante ou apresentar incapacidade de deambular sem auxílio.

Importância clínica

A marcha atáxica é um marcador importante de disfunção neurológica, podendo ser o primeiro sinal de doença cerebelar, mielopatia, neuropatia periférica ou labirintopatias. Por isso, não deve ser subestimada.

Em contextos agudos, como um AVC de fossa posterior, a ataxia pode surgir subitamente e vir acompanhada de outros sinais como náuseas, disartria e instabilidade postural. Já em doenças degenerativas, a marcha atáxica tende a evoluir progressivamente, impactando significativamente a qualidade de vida.

A análise da marcha é um componente fundamental do exame neurológico. Para investigar a marcha atáxica, recomenda-se:

  1. Observar o paciente andando em linha reta, com e sem apoio.
  2. Avaliar marcha com os olhos fechados.
  3. Realizar prova de Romberg: indica ataxia sensitiva se houver desequilíbrio apenas com olhos fechados.
  4. Testar a coordenação de membros (teste dedo-nariz, calcanhar-joelho).
  5. Avaliar sensibilidade proprioceptiva, força e reflexos.

Em muitos casos, exames de imagem (como a ressonância magnética do encéfalo) ou eletroneuromiografia podem ser necessários para elucidar a causa.

Tipos de ataxia e suas causas

A marcha atáxica pode se originar de diferentes sistemas envolvidos no controle do equilíbrio e da coordenação. Por isso, é útil classificá-la conforme a origem do comprometimento:

Decorre de lesões no cerebelo ou em suas vias aferentes e eferentes.

Características:

  • Marcha com base alargada e oscilação do tronco
  • Dificuldade de coordenação em membros superiores (dismetria, disdiadococinesia)
  • Disartria e nistagmo podem estar presentes

Causas:

  • AVC cerebelar
  • Tumores na fossa posterior
  • Esclerose múltipla
  • Ataxias hereditárias (ex: Ataxia de Friedreich)
  • Alcoolismo crônico
  • Encefalites ou intoxicações

Relacionada à perda da propriocepção, geralmente por lesão nas vias somatossensitivas (colunas posteriores da medula ou nervos periféricos).

Características:

  • Paciente caminha olhando para os pés
  • Piora da marcha com os olhos fechados (prova de Romberg positiva)
  • Pode coexistir com hipoestesia em membros inferiores

Causas:

  • Neuropatia periférica (diabética, carencial)
  • Mielopatia por deficiência de vitamina B12
  • Sífilis terciária (Tabes dorsalis)
  • Esclerose subaguda combinada da medula

Resulta de disfunções no sistema vestibular, afetando o senso de equilíbrio.

Características:

  • Marcha oscilante com tendência a cair para um lado
  • Pode haver vertigem, nistagmo e náuseas
  • Piora com movimentações rápidas da cabeça

Causas:

  • Neuronite vestibular
  • Doença de Menière
  • Schwannoma vestibular (neurinoma do acústico)
  • Labirintites

Referências

  1. Blumenfeld H. Neuroanatomy through Clinical Cases. 2nd ed. Sinauer Associates, 2010.
  2. DeMyer W. Techniques of the Neurologic Examination. McGraw-Hill Education, 2004.
  3. Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo de Diagnóstico das Doenças Neurológicas Degenerativas.
  4. Snell RS. Neuroanatomia Clínica. 7ª ed. Guanabara Koogan, 2011.
  5. Kaski D, Bronstein AM. “Vestibular and cerebellar gait ataxia.” Continuum (Minneap Minn). 2016;22(4):1104-1126.

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