Quando suspeitar
Febre aguda ou arrastada, sudorese, artralgia, fadiga ou sintomas focais associados a exposição epidemiológica compatível.
Zoonose sistêmica causada por Brucella spp., associada sobretudo a contato com animais infectados, produtos de origem animal não pasteurizados e exposições ocupacionais. O diagnóstico exige contexto epidemiológico + confirmação laboratorial, e o tratamento deve ser combinado e suficientemente prolongado para reduzir falha e recidiva.
Febre aguda ou arrastada, sudorese, artralgia, fadiga ou sintomas focais associados a exposição epidemiológica compatível.
Cultura é evidência definitiva. No Brasil, o PCDT organiza a investigação com Rosa Bengala, ELISA total/IgG e PCR conforme o fluxo laboratorial.
Adultos e maiores de 10 anos: doxiciclina combinada preferencialmente a aminoglicosídeo; rifampicina é alternativa quando o aminoglicosídeo não é viável.
Pasteurização, EPI em exposição animal e biossegurança laboratorial são centrais. Exposição acidental selecionada pode indicar PEP por 21 dias.
A brucelose humana é uma zoonose bacteriana sistêmica causada por espécies do gênero Brucella. São cocobacilos Gram-negativos, intracelulares facultativos, capazes de persistir em células do sistema mononuclear fagocitário. Essa biologia ajuda a explicar a necessidade de terapia combinada, a possibilidade de doença prolongada e o risco de recidiva quando o tratamento é inadequado.
A apresentação varia de síndrome febril inespecífica a doença focal osteoarticular, geniturinária, neurológica ou cardiovascular. Como não existe manifestação patognomônica, a história epidemiológica é parte central do diagnóstico.
Brucella spp. são cocobacilos Gram-negativos pequenos, não esporulados, não móveis e intracelulares facultativos. Em humanos, as espécies de maior importância são B. melitensis, B. abortus, B. suis e B. canis.
A capacidade de sobreviver dentro de macrófagos e outras células fagocíticas é central para a persistência, disseminação sistêmica e formação de focos em órgãos como fígado, baço, medula óssea, sistema osteoarticular, sistema nervoso central e coração.
A infecção começa após entrada pela mucosa gastrointestinal ou respiratória, conjuntiva ou pele lesionada. Depois da invasão, Brucella é internalizada principalmente por macrófagos e células dendríticas e passa a ocupar uma vacúolo contendo Brucella (BCV).
Associada principalmente a caprinos e ovinos. É uma das espécies mais virulentas para humanos e está frequentemente relacionada a produtos lácteos contaminados.
Relacionada a bovinos. Relevante no contexto pecuário e também em acidentes com vacinas veterinárias vivas.
Associada a suínos e javalis; importante em criação, frigoríficos e caça. Pode produzir doença focal e supurativa.
Relacionada a cães, canis e reprodução canina. Os testes sorológicos convencionais para espécies lisas podem não detectar essa infecção.
O período de incubação pode variar de aproximadamente 1 semana a 2 meses, mais frequentemente em torno de duas a quatro semanas, embora apresentações tardias possam ocorrer. Sem tratamento, a doença pode persistir por meses ou anos.
Faixa de incubação mais frequente.
Uma das manifestações mais comuns, mas não obrigatória.
É a forma focal mais frequente nas séries clínicas.
Incomum, porém potencialmente grave.
Pode surgir meses após o fim do tratamento.
Algumas referências descrevem doença aguda com menos de 2 meses, subaguda entre alguns meses e cerca de 1 ano, e crônica acima de 1 ano. Essa classificação não é universal. Para a conduta, é mais importante identificar forma focal, gravidade e fatores do hospedeiro.
A infecção humana ocorre principalmente pela exposição direta ou indireta a animais infectados e seus produtos. O risco depende da espécie de Brucella, do material envolvido, da porta de entrada, da geração de aerossóis e das barreiras utilizadas.
Leite cru, queijos e outros derivados não pasteurizados são fontes clássicas. Carne mal cozida é possível, mas menos típica.
Placenta, fetos abortados, secreções uterinas, sangue, vísceras e tecidos podem contaminar pele não íntegra e mucosas.
Aerossóis têm grande importância em laboratórios, abatedouros e procedimentos com material altamente contaminado.
Trabalhadores rurais, veterinários, técnicos e pessoas que lidam com parto, aborto, placenta e secreções.
Contato com sangue, vísceras, carcaças e aerossóis durante processamento animal.
Brucella é um agente clássico de infecção adquirida em laboratório, principalmente em manipulações geradoras de aerossol fora de cabine adequada.
Caçadores de javalis, criadores de cães e profissionais de reprodução canina podem se expor a B. suis e B. canis.
O PCDT brasileiro recomenda analisar a fonte, o mecanismo de exposição e as barreiras utilizadas. Fora do laboratório não existe um escore universal validado, mas inoculação percutânea, contato com mucosa ou pele não íntegra e determinados eventos aerossolizantes envolvendo fonte confirmada ou altamente suspeita elevam muito o risco.
Organiza o raciocínio sobre risco. Não substitui classificação formal por saúde ocupacional, infectologia ou vigilância.
O início pode ser agudo ou insidioso. A combinação de febre, sudorese, astenia, artralgia, mialgia e perda ponderal é frequente, mas nenhuma associação isolada confirma o diagnóstico.
Febre, calafrios, fadiga, mal-estar, anorexia, perda de peso e cefaleia.
Pode ser noturna e profusa. O padrão febril pode ser intermitente ou ondulante.
Artralgia, mialgia e dor lombar são comuns; dor focal persistente exige investigação dirigida.
| Sistema | Manifestações | Ponto prático |
|---|---|---|
| Osteoarticular | Artrite periférica, sacroileíte, espondilite, osteomielite. | É a apresentação focal mais frequente. Dor persistente ou localizada deve direcionar imagem. |
| Geniturinário | Orquite, epididimite, prostatite; mais raramente abscessos. | Pode mimetizar outras causas infecciosas. A epidemiologia é decisiva. |
| Neurológico | Meningite, encefalite, mielite, radiculite, neurites, abscesso. | Exige avaliação especializada e esquema individualizado. |
| Cardiovascular | Endocardite, miocardite, pericardite, endarterite, aneurisma micótico. | Raro, mas endocardite é a complicação historicamente mais associada à mortalidade. |
| Hepatoesplênico/GI | Hepatomegalia, esplenomegalia, hepatite granulomatosa, abscesso hepático e sintomas digestivos. | Função hepática também influencia monitoramento do tratamento. |
| Respiratório | Tosse, dispneia, dor torácica, pneumonia; raramente empiema/abscesso. | Menos característico; manter diferenciais amplos. |
as recomendações padronizadas de 42 dias são mais aplicáveis à doença aguda/subaguda não localizada. Formas focais e graves exigem estratégia individualizada.
O diagnóstico clínico isolado é insuficiente. O cenário mais convincente combina síndrome compatível + vínculo epidemiológico + evidência laboratorial. Cultura/isolamento estabelece diagnóstico definitivo, mas a bacteremia pode ser baixa ou intermitente e a manipulação traz risco ocupacional.
A identificação de Brucella em sangue ou outro espécime estéril é evidência definitiva. A sensibilidade tende a ser maior na doença aguda e menor em formas crônicas ou de baixa bacteremia. Em doença focal, cultura do sítio acometido pode ser particularmente útil.
Em pacientes sintomáticos com suspeita, o PCDT 2025 orienta a realização simultânea de Rosa Bengala + ELISA total ou IgG. A positividade de ambos, no contexto clínico-epidemiológico apropriado, sustenta diagnóstico provável. Resultados negativos ou discordantes direcionam para PCR quando disponível.
Baseado na lógica do PCDT brasileiro. Não classifica um caso sem clínica e vínculo epidemiológico.
Não confirmam a doença, mas ajudam a medir repercussão e segurança do esquema antimicrobiano.
VHS/PCR podem auxiliar no acompanhamento em doença focal, sempre correlacionados à clínica.
RM, TC, ultrassonografia ou ecocardiografia são escolhidos conforme a suspeita de coluna, articulação, abscesso, SNC ou endocardite.
Líquor, líquido articular, material de abscesso ou outros espécimes podem ser enviados para cultura/PCR quando indicado.
Tuberculose, endocardite bacteriana, febre tifoide, malária em contexto epidemiológico, outras zoonoses febris, micoses sistêmicas, doenças reumatológicas, sarcoidose e neoplasias podem produzir quadros semelhantes.
O tratamento precisa combinar antimicrobianos com atividade contra uma bactéria intracelular e mantê-los por tempo suficiente para reduzir falha e recidiva. O PCDT brasileiro de 2025 prioriza, em adultos e crianças maiores de 10 anos sem contraindicações, doxiciclina associada a aminoglicosídeo. Doxiciclina + rifampicina é alternativa quando o aminoglicosídeo não é possível.
A escolha não deve considerar apenas “qual antibiótico usar”, mas também sítio da doença, gravidade, idade, gestação, função renal/hepática, interações, disponibilidade e possibilidade de monitoramento.
| Prioridade | Esquema | Duração | Comentário prático |
|---|---|---|---|
| Preferencial | Doxiciclina 100 mg 12/12 h + estreptomicina 1 g/dia IM | Doxiciclina 42 dias; estreptomicina 14 dias | Boa experiência histórica; exige administração IM e vigilância de nefro/ototoxicidade. |
| Preferencial | Doxiciclina 100 mg 12/12 h + gentamicina 5 mg/kg/dia IM/IV | Doxiciclina 42 dias; gentamicina 5–7 dias | Reduz o período do aminoglicosídeo parenteral; requer ajuste/monitoramento renal conforme o caso. |
| Alternativo | Doxiciclina 100 mg 12/12 h + rifampicina 600 mg/dia | 42 dias | Totalmente oral, porém o PCDT brasileiro a coloca como alternativa quando aminoglicosídeo não é viável. |
Abra os cartões para ver dose, racional, monitoramento e pontos de atenção.
O retorno ou persistência de sintomas exige reavaliação antes de simplesmente repetir o mesmo esquema: confirmar adesão e duração, procurar foco oculto, coletar cultura quando possível e revisar interações, imunossupressão e diagnóstico diferencial.
O PCDT utiliza 5 mg/kg/dia por via IM ou IV por 5–7 dias, associada à doxiciclina por 42 dias. O cálculo abaixo mostra a dose teórica por peso; ajuste renal, intervalo, diluição e monitoramento seguem o protocolo do serviço.
100 mg VO a cada 12 h. Administrar com bastante água e evitar deitar imediatamente após a dose. Ferro, cálcio, magnésio e antiácidos podem reduzir a absorção.
600 mg/dia no esquema alternativo terapêutico. Tem muitas interações e potencial hepatotóxico; revisar contraceptivos, anticoagulantes e outros fármacos.
1 g IM/dia por 14 dias. Ototoxicidade e nefrotoxicidade são preocupações centrais; não é apropriada na gestação.
5 mg/kg/dia IM/IV por 5–7 dias. Ajustar na disfunção renal e monitorar toxicidade vestibular/auditiva de acordo com o risco.
O PCDT brasileiro exclui as formas complicadas de seus esquemas padronizados e determina manejo individualizado em serviço de referência. Os cartões abaixo mostram regimes usados em consensos e literatura recente, com doses e durações para orientar a consulta especializada — não substituem a decisão conjunta com infectologia e a especialidade do órgão acometido.
No PCDT brasileiro, crianças acima de 10 anos podem utilizar o esquema recomendado para adultos. Para crianças até 10 anos, o esquema mais utilizado no protocolo para doença não localizada é SMX-TMP + rifampicina por 42 dias.
Exibe as faixas por peso descritas no PCDT. Confirmar apresentação, teto, divisão de doses e função renal/hepática antes da prescrição.
A brucelose gestacional está associada a desfechos obstétricos adversos e deve ser manejada em serviço especializado, preferencialmente com obstetrícia. Tetraciclinas são contraindicadas e a estreptomicina traz risco de ototoxicidade fetal.
A PEP é mais bem estabelecida para exposição laboratorial de alto risco e é extrapolada pelo PCDT brasileiro para outros acidentes classificados como alto risco. A evidência é de baixa certeza, mas a recomendação considera a morbidade potencial e a dificuldade diagnóstica.
| Situação | Esquema | Duração | Observação |
|---|---|---|---|
| Padrão | Doxiciclina 100 mg + rifampicina 300 mg, ambos 12/12 h | 21 dias | PCDT brasileiro para exposição de alto risco. |
| Doxiciclina contraindicada | SMX-TMP 400/80 mg + rifampicina 300 mg, ambos 12/12 h | 21 dias | Individualizar população especial e contraindicações. |
| RB51 | Não utilizar rifampicina. | 21 dias | O PCDT e o CDC diferem na composição exata da PEP; discutir com referência. |
O CDC 2026 destaca como especialmente arriscadas as manipulações com potencial de gerar aerossol ou respingo fora de cabine de segurança biológica classe II, como pipetagem, centrifugação não protegida, vortex, sonicação, abertura de recipientes e derramamentos.
A resposta é avaliada principalmente pela evolução clínica: resolução da febre, melhora dos sintomas constitucionais e recuperação do foco. Marcadores inflamatórios podem ajudar conforme o cenário, mas não substituem avaliação clínica.
Reavaliar sintomas, aderência, eventos adversos, função renal/hepática e exames específicos do esquema.
Se o diagnóstico usou teste quantitativo, o PCDT considera nova avaliação em torno da 6ª semana ou até duas semanas após o término.
Manter seguimento clínico por pelo menos 12 meses para detectar recidiva.
Persistência de manifestações atribuíveis à doença após período adequado de tratamento exige reavaliação de foco, aderência, dose, interação, resistência e diagnóstico.
Reaparecimento dos sintomas após período de melhora pode ocorrer meses depois. A ausência de elevação sorológica não exclui recidiva se a clínica for convincente.
Antes de repetir o mesmo esquema, procure endocardite, osteomielite/espondilite, abscesso, coleção, foco não reconhecido, adesão inadequada ou duração insuficiente.
Consumir leite e derivados pasteurizados e evitar produtos crus de procedência desconhecida.
Luvas, proteção ocular, avental e proteção respiratória conforme risco; atenção especial a parto, aborto e placenta.
Cabine de segurança, medidas de contenção e minimização de aerossóis; notificação imediata de acidentes.
Evitar autoinoculação e contato de spray com mucosas. Acidentes com RB51 exigem abordagem específica.
| Erro | Por que é um problema | Como evitar |
|---|---|---|
| Ignorar a epidemiologia | Os sintomas são inespecíficos e o diagnóstico atrasa. | Perguntar sobre animais, leite cru, laboratório, frigorífico, caça e vacinas veterinárias. |
| Usar IgM isolado | Pode haver falso-positivo e persistência prolongada. | Seguir o fluxo combinado do PCDT. |
| Não avisar o laboratório | A manipulação pode expor profissionais por aerossóis. | Comunicar a hipótese antes do processamento. |
| Monoterapia curta | Aumenta risco de insucesso e recidiva. | Usar combinação e duração adequadas ao cenário. |
| Rifampicina na RB51 | A cepa é resistente. | Identificar a cepa/exposição e usar protocolo específico. |
| Tratar sorologia, não o paciente | Anticorpos podem persistir após cura. | Basear reavaliação em clínica, foco e microbiologia quando indicada. |
Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Doses por peso, função renal/hepática, formas focais graves, gestação e profilaxia após exposição devem ser conferidas antes da prescrição.
O essencial da Brucelose para consulta rápida no celular.
Febre/sudorese/artralgia + exposição animal, alimentar, ocupacional ou laboratorial.
Cultura confirma. No PCDT: Rosa Bengala + ELISA total/IgG; PCR se negativos/discordantes.
Adulto: doxiciclina por 42 dias + aminoglicosídeo preferencialmente.
PEP de alto risco por 21 dias; RB51 não recebe rifampicina.
Período de incubação mais frequente.
Seguimento clínico mínimo após o tratamento para detecção de recidiva.
Brucella é agente clássico de infecção adquirida em laboratório.
Resistente à rifampicina e sem sorologia convencional útil.
Brucelose → febre ondulante + sudorese noturna + exposição ocupacional ou ingestão de leite não pasteurizado.
Lembre-se das complicações osteoarticulares e da necessidade de tratamento combinado e prolongado.
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